texto: NÉRI PEDROSO
fotos MARCO CEZAR | DIVULGAÇÃO | RAUL MONTERO
(Foto de abertura: MARCO CEZAR)
Até 11 de julho, o público pode conferir no Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação (em Florianópolis) a Mostra “Céu e Terra dos Andes”
Com entrada gratuita, a mostra inédita – que reúne obras raras do século 18 -tem a curadoria de Andrés De Leo e Diana Castillo, ambos do Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia (Utec), do Peru. O assunto é um dos destaques da edição impressa RM94, com seis páginas (confira reprodução no final desta matéria) que situam o trabalho dos renomados especialistas convidados que selecionaram cerca de 40 obras do núcleo de arte andina da Coleção Collaço Paulo, composta por pinturas, objetos, artefatos, registros audiovisuais e materiais de ateliê, sobretudo do século 18.

Interessados no assunto que ainda não apreciaram a mostra devem se atentar, pois falta menos de um mês para a desmontagem deste acervo que convida a descobrir a riqueza espiritual, técnica e simbólica da arte da América Latina. A colaboração entre o Instituto Collaço Paulo e a Utec fortalece o intercâmbio acadêmico e cultural entre o Peru e o Brasil. A iniciativa conta com o apoio cultural do Utec, Sesi, Ibagy, Corporate Park e Paradigma Cine Arte.
Com expressiva visitação, a mostra se insere no objetivo institucional de promover o diálogo entre arte e educação na América Latina, e no compromisso da Utec em difundir o conhecimento do patrimônio cultural peruano em âmbito internacional. O recorte da coleção coloca em evidência obras de arte do vice-reinado, o período virreinal. Em 1543, a Espanha estabeleceu o Vice-Reino do Peru para administrar o Peru e controlar as terras sul-americanas como o Panamá, Colômbia, Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, parte da Bolívia e, em alguns períodos, a Venezuela.
Imaginário andino

Pela primeira vez no Brasil, em razão da curadoria de mostra “Céu e Terra dos Andes”, os professores doutores De Leo e Castillo ajudam a ampliar entendimentos. A mostra, segundo eles, entrelaça pinturas e representações de esculturas veneradas em santuários, nas hostes celestes, santos e anjos “reinterpretados no imaginário andino”. Cada trabalho integra uma urdidura europeia que nos Andes ganha novas agências, cores e significados. A pintura é apresentada para além da transposição de modelos europeus, afirmando a produção pictórica em sua força de reinterpretação, algo novo para a história, um percurso de arte entre a devoção terrena e a visão celestial.

Em cinco núcleos, aprofundam-se os caminhos da feitura da arte virreinal, destacam-se as imagens de devoção, com composição de velas, flores e cortinas, a tradição dos anjos arcabuzeiros, guerreiros do céu representados com trajes cortesãos, as representações da batalha espiritual entre o bem e o mal, em cenas de doutrinação, e por fim, o ciclo mariano, da anunciação à coroação da “Rainha do Céu”.

O título sintetiza o conceito da mostra que, de um lado aponta para céu como o espaço celestial, local simbólico da fé cristã — o domínio angelical, das virtudes, dos ciclos marianos e da promessa de salvação — e de outro, convoca a terra como origem material, cultural e sensorial dessa produção – o povo produtor, da feitura por meio de pigmentos minerais e vegetais, as práticas locais e a reinterpretação indígena das formas europeias.
Única representação brasileira
A conexão entre tempos e realidades distintas, o passado e o contemporâneo, aparece na mais recente obra incorporada à Coleção Collaço Paulo. Recém chegada, sem o abandono do que está posto na proposta expositiva de arte andina, abre-se espaço em favor de uma representação brasileira do século 21 com “A Supressão do Santo pelo Ornamento” (2025), óleo e acrílica sobre compensado naval (203,5 × 147 cm), de André Griffo.

203,5 x 147 cm | Foto: Marco Cezar
Fluminense, formado em arquitetura e urbanismo, dedica-se às artes visuais desde 2009 com uma produção de esculturas, instalações e pinturas com as quais discute questões de dominação, controle e o poder da religião.
Com referências históricas e contemporâneas, o artista aborda as estruturas de violências. Sua vigorosa pintura pede atenção ao específico pois faz diferença na apreciação e reflexões suscitadas pela obra. No olhar atento, percebe-se o embaralhamento entre o documental e o ficcional que se contrapõe à hegemonia da história do Brasil, expondo ruínas e os impactos da economia escravocrata na formação brasileira, o perverso nas instituições religiosas, as imposições na criação simbólica de imaginários.
EQUIPE TÉCNICA
Acervo: Coleção Collaço Paulo
Curadoria, expografia e textos: Andrés De Leo e Diana Castillo
Produção e tradução de textos: Francine Goudel
Assessoria de imprensa, revisão e edição de textos: Néri Pedroso
Material e proposições educativas: Joana Amarante e Marcello Carpes
Coordenação de acervo: Cristina Maria Dalla Nora
Conservação e restauração do acervo: Sára Fermiano
Montagem: Flávio Xanxa Brunetto
Apoio de montagem: Adriano Lessa, Joana Amarante e Marcello Carpes
Material gráfico e identidade visual: Lorena Galeri
Gestão de mídias sociais: Natália Régis
Fotografia da coleção: Eduardo Marques

Realização
Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação
Apoio
Centro de Pesquisa e Conservação do Patrimônio da Universidade de Engenharia e Tecnologia, Sesi, Ibagy, Corporate Park e Paradigma Cine Arte
Páginas da edição impressa








