(Foto de abertura: Mestre Baleia em seu ateliê, entre os mosaicos que apresentam releituras de obras do artista plástico Luciano Martins | Foto: Marco Cezar)
O nome dele é Sátiro dos Santos Filho. Mas este artista intenso, bem-humorado, falante e que tem sempre um sorriso estampado no rosto é conhecido mesmo como Mestre Baleia, aquele que adora ensinar o que faz muito bem: mosaicos!
texto LU ZUÊ
fotos MARCO CEZAR | DIVULGAÇÃO
Nascido e criado no Morro do Mocotó (região central de Florianópolis), mestre Baleia é daquelas pessoas que transforma em oportunidades tudo aquilo que a vida apresenta, e muitas vezes escolhe o caminho mais difícil – porque não tem medo de desafios. Isso explica, em parte, porque decidiu trabalhar com mosaico, transformando em arte “cacos” de materiais de construção que tinham o lixo como destino.
Mestre Baleia trabalhava na construção civil como pedreiro e pintor, e conheceu um artista que fazia mosaicos. Encantado, quis aprender como fazer, e começou a produzir quadrinhos com emblemas do Avaí e do Figueirense, os dois times de futebol da Capital. Os primeiros “críticos” de seu trabalho foram as crianças da comunidade, que apontavam os “defeitos” – “Crianças são sinceras”, diz. Voltava para casa e refazia o trabalho.
Isso aconteceu há mais de 20 anos, e embora ainda não soubesse, desde aquele momento estava colocando em prática o que hoje o destaca também em outra vertente: a arte-educação.

Apaixonado pelo seu trabalho, com muita propriedade Baleia é defensor fervoroso da importância de se compartilhar conhecimentos e tem profundo orgulho do impacto social que seu trabalho tem hoje. “Lá atrás, quando conheci o mosaico, quis aprender, mas a pessoa não gostava de ensinar. Às vezes até cobria seu trabalho com um pano para esconder como fazia. Eu gosto mesmo é de mostrar e ensinar tudo o que já aprendi e continuo aprendendo”. Para ele, “generosidade” e “amorosidade” são essenciais para atrair coisas boas e dar continuidade à arte.
Atualmente, Mestre Baleia desenvolve um lindo trabalho junto a escolas municipais, repassando para as crianças ensinamentos sobre a arte do mosaico Junto da prática e de forma muito natural, trabalha o potencial criativo individual e o respeito pelos materiais que podem ser considerados “descartáveis”.
Quase quatro mil crianças já participaram de suas oficinas.

Em busca de melhores condições de vida, Baleia prestou dois concursos municipais para trabalhar na limpeza pública. Foi aprovado em ambos, e durante muito tempo passou as noites “correndo atrás de caminhão”, sempre com a mesma alegria e energia. Isso, a propósito, lhe rendeu duas cirurgias nos joelhos.
Vem desse trabalho sua atenção àquilo que muitos consideram lixo, mas que pode ser reutilizado, transformado.
De forma alguma o trabalho como gari impediu o desenvolvimento de sua arte com mosaicos. Na verdade, acabou dando suporte e ampliando sua face de arte-educador. Há alguns anos, ele foi cedido à Secretaria de Educação, e passou a realizar formalmente as oficinas em escolas.
“Adoro trabalhar com crianças, ver a curiosidade, a vontade de aprender, a felicidade com o resultado daquilo que fazem, e, principalmente, o quanto isso impacta na vida de cada um.
Isso me deixa feliz demais. Feliz e orgulhoso!”

O trabalho nas escolas, aliás, rende boas histórias. Buscando um local para fazer um mosaico, Mestre Baleia chegou ao Núcleo de Educação Infantil Municipal Idalina Ochôa, no bairro Carianos. A diretora pediu que fosse na frente da escola, onde na verdade existia apenas uma grade. A solução? Construir um muro (a “tela”).
Com materiais adquiridos pela secretaria, o próprio Baleia colocou a mão na massa – relembrando seus tempos de pedreiro – construiu o muro e fez o mosaico.

Mosaico em escola no bairro Costeira, fruto de uma parceria com o artista plástico Luciano Martins | Foto: Marco Cezar
Boa parte dos mosaicos de mestre Baleia é desenvolvida em seu ateliê, localizado no bairro Carianos. É um lugar pequeno, mas segundo ele, “cheio de energia positiva” (é verdade!), e o trabalho flui com leveza, ora dentro do espaço, ora ao ar livre.
Ali guarda suas ferramentas de trabalho, com uma “desorganização organizada”. Ele conta que já ganhou algumas novas de amigos e clientes, mas prefere mesmo suas velhas companheiras de vida, e sorrindo mostra uma torquês que traz as marcas do tempo. “Juntas, temos 100 anos”, diz, sorrindo.

O fato é que a habilidade de Mestre Baleia com o uso das “velhas” ferramentas transforma pedaços minúsculos de cerâmica quebrada em mosaicos repletos de beleza e significado.
Muitas obras decoram paredes e fazem parte de móveis em casas e escritórios, levando para os ambientes trabalhos personalizados. Mas basta um passeio por perto do ateliê, ou até ampliar um pouco o roteiro pelas ruas do bairro Costeira do Pirajubaé para se deparar com inúmeros mosaicos em muros e paredes de escolas e de vários estabelecimentos comerciais. Alguns pequenos, outros de grandes dimensões, sempre tendo em comum o cuidado com os detalhes, que são uma característica marcante nas obras do Mestre.

Em dezembro de 2024, Mestre Baleia deu início a um projeto em parceria com o artista plástico Luciano Martins. Na verdade, Baleia aceitou um desafio de Martins, que é entusiasta do trabalho do Mestre dos mosaicos: depois de uma série de trabalhos desenvolvidos em conjunto, Luciano desafiou Baleia a reproduzir – melhor dizendo, a fazer uma releitura – de 10 de suas pinturas, todas retratando santos e a Santa Ceia.


No final de outubro, o resultado dessa parceria foi apresentado ao público por meio da exposição “Fragmentos de Fé”, realizada na Galeria Viva Arte, em Florianópolis.
Apesar de que em ocasiões anteriores a dupla já havia combinado as cores vibrantes e estilo único de Martins e a precisão do trabalho de Baleia em inúmeros mosaicos, foi a primeira vez que uma exposição conjunta reuniu o trabalho de ambos.
Reconhecimento merecido para um homem que sempre enfrentou com sorrisos e ânimo as dificuldades que a vida apresentou, que tem filosofia de vida, a resiliência, e que utiliza a arte como ferramenta de inclusão social, educação e valorização da comunidade, criando um legado de pertencimento e conhecimento.






