VIDA LONGA AO BOI DE MAMÃO

(Foto de abertura: Cortejo de abertura do “Festival de Bois de Mamão – O Canto que Encanta”, realizado em Florianópolis no mês de agosto. Foto: Laura Sacchetti)

“Olha lá, mestre vaqueiro, escutais o meu cantar…

vai buscar dona Bernunça e depois o Jaraguá…

Olê, olê, olê, olê, olá…

Arreda do caminho que a Bernunça quer passar…”

Quem nunca escutou essa música e não conhece a tradicional manifestação cultural, pode até não entender logo de primeira do que se trata, mas basta assistir a uma apresentação de um grupo de boi de mamão para seguir cantarolando junto, batendo palmas e curtindo todos os personagens que contam uma história singela e encantadora.

Conhecida em toda Santa Catarina – especialmente nos municípios do litoral -, a tradição do Boi de Mamão é uma das mais autênticas manifestações da cultura popular catarinense, e conta com um amplo grupo de defensores que não economizam em trabalho e esforços para preservá-la e divulgá-la para as novas gerações. Por aqueles que a ela se dedicam, trata-se de uma tarefa considerada extremamente gratificante, e que nos últimos anos registrou grandes conquistas para alcançar os objetivos e garantir que a brincadeira siga encantando as pessoas. E como encanta!

Não foi por acaso que o nome do primeiro festival a reunir grupos de Boi de Mamão em Florianópolis trouxe no nome a força relacionada à magia do verbo “encantar”. Realizado em agosto na Capital, o “Festival de Bois de Mamão – O Canto que Encanta” foi promovido e organizado pelo Conselho que mobiliza os grupos em todo o Estado, e contou com o apoio da administração municipal e da Câmara de Vereadores, por meio de emendas impositivas.

Um cortejo animado e embalado pela cantoria tradicional que tanto encanta as pessoas, atravessou a Ponte Hercílio Luz e abriu o primeiro ‘Festival de Bois de Mamão’ da Capital.

Realizado nas tardes de um final de semana de inverno brindado por um sol maravilhosamente convidativo, 13 grupos participaram do cortejo que atravessou a Ponte Hercílio Luz e se dividiram em dois dias de apresentações no Parque da Luz, bem no coração da cidade. Lá, em uma grande tenda montada e decorada, um público animado e atento formado por pessoas de todas as idades, celebrou a cultura e aplaudiu calorosamente cada personagem, cantando e batendo palmas ao som das canções que envolvem naturalmente qualquer pessoa. Mas quem aproveitou muito foram os pequenos, muitos vestidos a caráter, alguns arriscando passos e tentando participar da apresentação, mas todos aplaudindo muito e conhecendo um pouco dessa autêntica e bela manifestação da cultura popular catarinense. Foi lindo!

Foto: Laura Sacchetti

“Fizemos um baile de
reis, fizemos um baile de cota…
Está chegando a hora
de dançar a Maricota.
Dona Maricota, nariz de pimentão,

deixou cair as calças no meio do salão.”

“Vamos moreninha,
vamos até lá
Vamos lá na vila
para ver meu boi dançar.
Eu caio, eu caio,
na boca da noite
sereno eu caio”

Foto: Marco Cezar

Conselho Estadual

Criado em 2018, o Conselho de Bois de Mamão de Santa Catarina concentra esforços para promover o reconhecimento, organização e valorização da tradição em solo catarinense. Para isso, desde o início vem realizando simultaneamente um trabalho estruturante – de cadastramento, mobilização e integração dos grupos – e de reconhecimento da tradição como patrimônio cultural. A primeira conquista veio logo no ano seguinte, quando em 22 de agosto (Dia do Folclore), a Capital deu um importante passo na valorização do folguedo, declarando o Boi de Mamão como Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível de Florianópolis. “Com a criação do Conselho, criamos comissões de trabalho para atuar de forma ampla, e articulamos um movimento entre todos os grupos que fomos contactando para fomentar o reconhecimento do Boi de Mamão junto ao poder público. Nos organizamos, e hoje o Conselho está consolidado e o movimento muito fortalecido. A parceria com o poder público existe – foi a partir dela, inclusive, que conseguimos o reconhecimento da tradição como patrimônio imaterial em Florianópolis -, mas os dois lados sabem que existe espaço e condições para melhorar”, explica Cláudio Andrade, presidente do Conselho. Atualmente, 11 grupos já foram fazem parte do Conselho, mas o trabalho de articulação segue firme (no Festival, 14 grupos se apresentaram), e segundo Andrade, até o início de 2026 outros dois grupos devem se juntar a eles.

Foto: Marco Cezar

Caminhando entre o grande público que prestigiou o evento e disputou espaço na arena montada no Parque da Luz para as apresentações, o prefeito Topázio Neto lembrou que desde 2021, a prefeitura vem promovendo o que ele chamou de “resgate” do folguedo, contratando grupos da cidade para apresentações em eventos públicos. “Isso foi criando um caldo cultural junto ao público – especialmente as crianças -, contribuindo com a integração entre os grupos e fortalecendo essa tradição tão importante. O resultado? Agendas lotadas e reconhecimento maior para essa atividade, o que pode ser comprovado num evento como este”, destacou.

Foto: Marco Cezar

Presente também, a secretária de Turismo, Esporte e Cultura da Capital, Zena Becker, destacou que essas ações são fundamentais para garantir a preservação da tradição e da cultura locais. “O povo que não valoriza sua cultura, não valoriza sua história. Por isso, temos trabalhado muito nesses últimos tempos desta gestão para dar visibilidade e destaque para nossas tradições, e a quantidade de pessoas aqui no Festival é prova de que elas gostam e estão cada vez mais valorizando uma tradição local. E é muito importante que as crianças recebam esse exemplo, porque elas vão aprendendo desde pequenas e levam adiante nossa história e tradições”, afirmou.

Ainda há muito trabalho a se fazer?

A resposta é sim, e não faltam ideias.

Entre os grupos que se apresentaram no final de semana do Festival, dois não são originários de Florianópolis, e é assim, por exemplo, que se amplia o coro para transformar a tradição em Patrimônio Imaterial de Santa Catarina (o pedido já foi feito à Fundação catarinense de Cultura). Mas as ideias vão além!

Cláudio Andrade, presidente do Conselho de Bois de Mamão de Santa Catarina | Foto: Marco Cezar

“Desde que criamos o nosso grupo em Santo Antônio de Lisboa, temos sonhado com dias melhores para o boi. Já conseguimos fazer com que cada vez mais as pessoas percebam o boi de mamão como algo de fato poderoso culturalmente, que toca a alma do povo, desenvolvendo uma relação de pertencimento e afetividade. O público já conhece os cantos e personagens, assiste às apresentações e vibra com a história contada. Mas é claro que sonhamos com mais….”, confessa Cláudio Andrade, vislumbrando, por exemplo, a criação de um espaço com estrutura adequada, especificamente para apresentações de Boi de Mamão. “Se temos um espaço  para o carnaval, que acontece uma vez no ano, porque não termos uma arena para o Boi de Mamão, que tem apresentações acontecendo praticamente todas as semanas? Por que não transformar essa tradição, que já faz parte do calendário cultural da cidade em algo ainda mais forte, inclusive economicamente?”, questiona.

E a caminhada continua….

Paixão pela tradição

Entre os muitos grupos de Boi de Mamão que nasceram e sobrevivem em Florianópolis, um deles – a Associação Folclórica Boi de Mamão de Jurerê – é coordenado por Sérgio Antônio de Souza, conhecido como Morreba.

Envolvido com a tradição e arrebatado pela paixão desde criança, Morreba relembra que antigamente, passadas as “farras” com os bois verdadeiros, a alternativa era sair pelas ruas para se divertir com os personagens do Boi de Mamão. “Saíamos pelo bairro pedindo permissão aos moradores para apresentar o Boi de Mamão nos terrenos das casas. E depois, eles retribuíam… as crianças ganhavam suco e lanches, e os adultos, a “consertada”, uma tradicional mistura de café e cachaça, lembra.

Foto: Marco Cezar

Literalmente no quintal de casa e com a ajuda da mulher, ele guarda com cuidado e carinho os personagens do Boi de Mamão e juntos trabalham para preservar a tradição. Entusiasmado, conseguiu mobilizar vizinhos e conhecidos para manter o grupo em atuação.

Hoje, o grupo conta com 16 componentes, que se mobilizam para ensaiar, ajudar a consertar personagens e figurinos, participar das apresentações e, com amor e vontade, manter a tradição em dia. E assim, o Boi, a Cabra, Cavalo, Bernunça, Maricota, Doutor, Laçador, Benzedeira, ursos branco e preto…. todos os personagens seguem conquistando os corações das novas gerações.

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