Santa Catarina é, sem dúvida, um estado gastronômico, e os pescadores subaquáticos têm participação ativa no processo de conquista desse status … aqui, seguramente, surgiu uma das primeiras cozinhas “fusion” do mundo. E as memórias do Narbal Corrêa estão aí para relembrar um pouco dessa história.
(Foto de abertura: Ney Mund, Marcelo Moura, Narbal Corrêa e Ricardo Kiki Ganzo Pereira em ação | Foto: Acervo Narbal Corrêa)
texto NARBAL CORRÊA
fotos ACERVO NARBAL CORRÊA | MARCO CEZAR
A Capital já passou por três ocupações de pré-cabralianos (Homem do sambaqui, Jês do Sul – atuais Xoklengs e Kaingangs – e Guaranis), europeus, africanos, orientais, sul-americanos de outros países e caribenhos. Todo este “caldeirão” cultural enriqueceu a culinária de nossa ilha justificando o título recebido em 2014 de Cidade Criativa da Gastronomia, chancelado pela UNESCO.
Cada migração ou imigração se reflete em nossa cultura gastronômica. Além disso, estamos na vanguarda da gastronomia brasileira: nosso estado é o único que tem uma lei que permite ao pescador artesanal comercializar peixes e frutos do mar diretamente com restaurantes, sem que haja a necessidade destes produtos passarem por inspeção. Com isso, esses insumos chegam com mais facilidade e velocidade ao destino final, garantindo, portanto, a oferta de produtos de melhor qualidade. Somos também o único estado da federação onde a coleta de ouriços é regulamentada.


Porém, há que se considerar um fato importante que nos passa despercebido: a introdução de modalidade de pesca também pode alterar os cardápios de uma cidade, e por aqui, um exemplo concreto e vitorioso ocorreu por meio de uma modalidade de pesca: a subaquática. Foram os pescadores submarinos que introduziram novos peixes, frutos do mar e pratos nos menus por aqui. Se atualmente temos acesso a frutos do mar como lagostas, vieiras, ouriços, polvos; e pratos como moqueca e “Coquilles”, é porque esses mergulhadores os introduziram.
E este é o assunto sobre o qual falarei nesta matéria. Vou descrever a cronologia dos restaurantes aqui estabelecidos por pescadores submarinos, fato que teve início nos anos 80.
As informações que apresento na sequência foram extraídas do livro ‘E Vem do Mar’, de minha autoria em parceria com o brilhante historiador Amílcar D’Ávila de Mello. Então vamos lá!

Nos anos 80, o político e pescador subaquático Edison Andrino, o irmão Djalma e o cunhado, João Cesar de Andrade, filhos e genro de Adrião Andrino, abriram, na Lagoa da Conceição, o Restaurante Mariscão. Pioneiro como o pai, Edison tornou-se o primeiro pescador subaquático a ter um restaurante na cidade.
Enquanto o pai, proprietário de embarcações de pesca, abastecia seu restaurante Andrinos com peixes capturados na própria rede, o filho Edison obtinha os seus na pesca subaquática, e também comprava a produção de outros mergulhadores.


O maior sucesso da gastronomia marinha da cidade teve início em 1983 e tinha nome e endereço: Paulo Eduardo Guinle, Beco dos Surfistas.
Mergulhador e surfista carioca, Paulinho, como é conhecido, chegou a Florianópolis em 1974 em busca de ondas e águas claras. Estabelecido no famoso beco da estrada da Praia da Joaquina, o carioca trouxe técnicas avançadas de pesca subaquática que influenciaram sua geração e as subsequentes na região. Paulo e sua esposa, Fátima, abriram as portas do premiadíssimo restaurante Martin Pescador. Pela primeira vez, os moradores de Florianópolis saboreavam moquecas, vieiras, “coquilles de camarões e de siri”, peixe com banana, entre outros deliciosos pratos. O sucesso do Martin Pescador foi tão grande que ele foi considerado o melhor restaurante da Região Sul do Brasil pelo “Guia Brasil – Quatro Rodas”, edição 1992. Foi o único estabelecimento de Florianópolis a ostentar 2 estrelas outorgadas por esse guia, à época o mais respeitado do país, comparado ao Michelin e Relais Chateau.

Em 1° de novembro de 1985 foi a vez de Alfredo Roberto de Oliveira, o Fedoca, abrir seu bar. No início, ele servia camarões brancos da baía de Coqueiros e deliciosas empadinhas terceirizadas. Terça-feira era dia de um risoto de camarão inesquecível. O negócio prosperou rapidamente e Fedoca ampliou a casa e o cardápio. A moqueca é o prato de maior sucesso na duradoura carreira do chef mergulhador, dando-lhe a fama de um dos melhores “moquequeiros” de Florianópolis. Atualmente, ele leva o timão do restaurante e marina que tem seu nome, na Fortaleza da Barra da Lagoa.
Em 1986, Oldoni “Nuno” Olsen e a esposa, Luciana, constituíram o Nautillus, no Porto da Lagoa. Lá, eram servidas anchovas marisqueiras, garoupas e os famosos bolinhos de peixe, batizados de “pérolas do mar”. O sucesso foi interrompido pelo trágico acidente que ceifou a vida de Nuno, enquanto praticava pesca submarina na ilha Tacami, em Itapirubá. No fatídico dia, Nuno estava acompanhado do amigo e companheiro de pesca, Rubens Nicolau Maes, que também era restauranter na cidade. O pescador-mergulhador José Pedro Ramos assumiu o Nautillus, que fechou as portas um par de anos depois.

Outro restaurante que marcou época em Florianópolis foi o Toca da Garoupa, inaugurado na praia de Jurerê no Réveillon 1986-87. Seus fundadores, Marcelo Lebarbenchon Moura e Ney Mund Filho, ficaram surpresos com a estreia espetacular da casa.
A família Moura é tradicional no comércio local. Os antepassados de Marcelo foram sócios-proprietários de restaurantes (Miramar), hotéis (Taranto), cinema, farmácia e outros estabelecimentos. Seguindo a tradição familiar, o primo João Moura Neto foi fundador e proprietário do Marina’s Palace Hotel, na praia de Canasvieiras. Ney era funcionário público e deixou o emprego para se dedicar à pesca submarina.
O cardápio do Toca da Garoupa foi elaborado pelo chef Jorge (ex-Maria do Mar), e pelo próprio Marcelo, com contribuições da prima Lucília Polli. Quem teve a sorte de frequentar o restaurante nessa fase, saboreou o camarão à Toca (gratinado com queijos), “coquilles” de siri e camarão, moquecas, lagostas, polvos e vieiras selvagens.

Exímio mergulhador e pescador, Ney era responsável pela captura de grande parte dos peixes, lagostas, mexilhões e vieiras oferecidos nos primeiros anos do Toca. Moura também contribuía com sua captura, mas, como estava mais voltado às funções administrativas, não dispunha de tempo para longas jornadas de pesca. Marcelo era dono de embarcação, cujos tripulantes eram hábeis pescadores submarinos que garantiam o abastecimento de frutos do mar nobres e frescos.
Em 1996 o Toca abriu uma filial no centro de Florianópolis. A parceria de sucesso durou até o ano 2000. A partir daí, Moura assumiu a matriz no Norte da Ilha rebatizada de Toca de Jurerê. Ney permaneceu na casa do centro, que manteve o nome original. Hoje, Marcelo e Neco se dedicam a outras atividades.
Na onda do sucesso do Martin Pescador e do Toca da Garoupa, outros pescadores subaquáticos abriram seus próprios restaurantes na Ilha de Santa Catarina.
São eles:
Companhias do Mar (1988-1990), dos casais Luís Henrique e Rosana dos Reis, e Reinaldo e Silvia Stuart;
Ponta do Rapa (1989-1991), de Aldo “Nonoco” Luis Cardoso;
Capitão & Narbal (1993-1995), de Arosni Hass e Narbal Corrêa;
Rupestre (1996-2004), de Ricardo “Kiki” Ganzo Pereira e Angela Flôres;
Sol Poente (2007- Presente), de Daniel Nunes Rovere e Maria Eduarda Meira;
Recanto dos Brunidores (2008-2010), de Fábio Luciano e Narbal Corrêa;
Lagosteria Rita Maria (2014 – 2021), de Victória e Narbal Corrêa; e
Puro Oyster Bar (2019-Presente), de Narbal Corrêa e Pedro Soares.

Sinto muito orgulho de ter participado desta revolução gastronômica em Florianópolis desde o início, tanto como fornecedor quanto como chef.
Minha trajetória nesse capítulo da história teve início quando eu fornecia peixes e frutos do mar para o Mariscão, Andrino’s, Martin Pescador, Toca da Garoupa e outros.
Em 1993 abri meu primeiro restaurante e continuo pescando e cozinhando a todo vapor!!!







Maravilha de matéria!
E as fotos… Só matador.
Parabéns Narbal, és um ícone na gastronomia catarinense e brasileira. Sem contar teus dotes no exterior.
[…] (Confira a matéria completa em Revista Mural) […]