O icônico cartão-postal de nosso Estado terá, novamente, posição de destaque nas celebrações de Ano Novo. Neste ano, a festa de Réveillon terá como tema “100 anos de Luz”, em homenagem ao centenário da Ponte Hercílio Luz, inaugurada em 13 de maio de 1926. Está programado um show pirotécnico de 15 minutos, que se encerra com a tradicional cascata que deixa a Ponte ainda mais encantadora.
Está pertinho, mas enquanto não chega, a Mural visita a edição 81, quando a “Velha Senhora” foi tema de uma matéria que tratava da “devolução” desse monumento aos catarinenses, após quase anos de interdição. Vale relembrar!
(FOTO DE ABERTURA: JOHN VENTURA)
Majestosa como sempre, mais linda do que nunca
TEXTO LU ZUÊ
FOTOS SECOM | ANTONIO CARLOS MAFALDA | SÉRGIO VIGNES | JOHN VENTURA
Depois de quase 30 anos de interdição, de idas e vindas, projetos, ideias e contestações, no dia 30 de dezembro de 2019 a “Ponte” ponte foi “devolvida” a Florianópolis, aos catarinenses e seus visitantes
Ao mesmo tempo em que o público contava os minutos para fazer por meio dela a travessia entre Ilha e Continente, também a Ponte Hercílio Luz parecia saudosa do calor do contato com o público.
E finalmente, depois de quase 30 anos de interdição, de idas e vindas, projetos, idéias e contestações, no dia 30 de dezembro de 2019 a ponte foi “devolvida” a Florianópolis, aos catarinenses e seus visitantes. A saudade era grande, evidenciada pelo grande movimento que, desde cedo, deu aos arredores do Parque da Luz um ar de festa. Muita gente procurava um lugar privilegiado para acompanhar a solenidade programada e ser um dos primeiros a fazer a travessia, outros, o melhor ângulo para as últimas fotos da Ponte vazia; mas todos comemoravam.

Reconhecendo a data como um momento histórico, muito especial e – por que não dizer, sentimental -, o Governo do Estado de Santa Catarina criou o Projeto Viva a Ponte, um conjunto de ações que integrou as secretarias de Estado da Infraestrutura e da Segurança Pública, Fundação Catarinense de Cultura, Fundação Catarinense de Esporte, Santur, Defesa Civil …eram muitos os envolvidos, mas a Hercílio Luz merecia.

O Viva a Ponte convidou o público não apenas a acompanhar a extensa programação artística, gastronômica, cultural e esportiva preparada para comemorar, ao longo de uma semana, a reabertura da estrutura, mas também a participar, sentir, viver cada momento, cada atração, participando ativa e intensivamente dos eventos, ou mesmo criando seu próprio evento. E o convite foi aceito: de acordo com os números divulgados pelos órgãos do governo do Estado, mais de 200 mil pessoas aproveitaram para matar a saudade já no primeiro dia, especialmente nos primeiros momentos da reabertura e no final da tarde e início da noite, quando o calor abrandou e o pôr do sol pareceu complementar a programação, como que, também, prestando sua homenagem.

As primeiras pessoas a atravessar a Hercílio Luz, logo após a solenidade e discursos de autoridades, estavam a bordo de quase 200 carros antigos. Foi uma carreata – puxada por um Fusca dos anos de 1970, dirigido pelo governador Carlos Moisés da Silva, e um Opala da mesma década, guiado pela vice-governadora Daniela Reinehr – que deu início à movimentação, mas havia carros de diferentes marcas e anos de fabricação, vindos de todos os lugares, tanto da Grande Florianópolis quanto do interior de Santa Catarina, e até de outros estados, como São Paulo e Paraná.

Depois dos carros, as pistas da Ponte foram tomadas pela população: eram famílias inteiras, grupos de jovens, turistas, pessoas mais idosas, quase todos com celulares na mão, registrando em detalhes o momento especial de pisar no novo piso gradeado; era um grupo variado mas que tinha em comum o sorriso no rosto e a expressão de encantamento com a grandiosidade da Ponte. Quem passa por ela se sente realmente pequeno.

Nos dias que se seguiram não seria diferente: seja como novidade para uns ou como reencontro para outros, a Ponte Hercílio Luz passou a ser o destino obrigatório para quem andava por aqui, e tudo foi noticiado. Até o “surpreendente” balanço, especialmente no vão central, ganhou espaço na mídia e no imaginário das pessoas. “Será que ela está realmente firme?” ou “Ela não vai cair?”, as pessoas perguntavam. A verdade é que ela sempre balançou. Quem era velho conhecido, lembrou!
A Hercílio Luz está de volta, e que seja para ficar…

Uma festa de recordes
Ao longo de sete dias, entre 30 de dezembro de 2019 – quando a Ponte foi reaberta -, e 5 de janeiro de 2020, quando foi oficialmente encerrada a programação comemorativa, a Hercílio Luz viu passarem por suas pistas e passarelas cerca de 1,18 milhão pessoas. Um recorde de público, certamente só superado pela quantidade de selfies publicadas e hashtags relacionadas à reabertura. O dia mais movimentado foi o penúltimo (sábado, 4 de janeiro), quando quase 400 mil pessoas circularam entre as cabeceiras, e o domingo – marcado pela Corrida da Hercílio Luz – fechou com mais de 300 mil visitantes. Foram pessoas de todas as idades e estilos de vida, que apenas aproveitaram a ocasião quanto curtiram ao máximo os eventos preparados, que incluíam oficinas de arte e esporte e prática de esportes radicais, como pêndulo humano, rapel e bungee jumping. Para os mais conservadores, feirinhas de gastronomia e artesanato, além de shows de música. Sem exceção, todas as programações atraíram muita atenção e reuniram grande número de pessoas.Para se ter uma idéia, as inscrições para a corrida, limitadas em duas mil, foram às 14 horas do dia 20 de dezembro, e em 8 minutos e 48segundos, todas as vagas já haviam sido preenchidas

Para cuidar de tudo e viabilizar o evento foi necessário mobilizar uma equipe de 170 pessoas entre organizadores e trabalhadores de apoio. Nos sete dias, foram realizadas 65 apresentações culturais. De acordo com os relatórios, quase mil saltos de bungee jumping foram realizados, cerca de 17 mil itens de alimentação foram comercializados (o sorvete foi o preferido dos visitantes, com 4,2 mil unidades), 6,6 mil litros de chope, 2,6 mil litros de água e 1,2 mil litros de caldo de cana.
Os números impressionam, mas não conseguem traduzir a emoção e o encantamento que as atrações despertaram no público: dos primeiros passos dados na Hercílio Luz reaberta, no dia 30 de dezembro, à apresentação da Orquestra de Baterias de Florianópolis, que reuniu 60 músicos e encerrou a programação na noite do domingo, 5 de janeiro, passando pela cascata de fogos na virada do ano e pela travessia de slackline realizada pelo catarinense Rafel Bridi (que cruzou o vão de 340 metros entre as duas estruturas mais altas do monumento, a 40 metros de altura da pista), tudo mereceu – e ganhou – muitos aplausos.A Ponte Hercílio Luz havia, finalmente, deixado de ser só um cartão-postal da Capital e voltava a fazer parte da vida dos catarinenses. E de muitos catarinenses, uma vez, que os ferros que auxiliaram na sustentação da estrutura durante todo o período de restauração serão utilizados na construção de mais de 500 pontes em todo o Estado, e várias cidades já assinaram o termo para receber os kits metálicos que derivaram das obras.
Ainda há muitas dúvidas a respeito das formas e condições de utilização da Hercílio Luz daqui para a frente – abre-se para circulação de carros particulares? Fica restrita a pedestres e ciclistas? Linhas de ônibus e veículos oficiais? Enfático em sua colocação, o fotógrafo Tarcísio Mattos – organizador de um livro sobre a Ponte, dispara: “Ela deve se aberta, sim, para o tráfego. Todos os cálculos foram feitos com o objetivo de que ela voltasse a ser um elo rodoviário entre a Ilha e Continente, e ela está segura. Deixá-la como um bibelô chega a ser um desrespeito para com sua história. Ela não nasceu para isso: nasceu para ser bonita e ter uma função social. Ela quer receber a “cosquinha” dos pneus passando sobre ela”, defende.

A Ponte eternizada em livro
Em 2002, depois de pouco mais de um ano e meio com um projeto pronto, jornalistas pautados, cadastro aprovado no Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) para captação de recursos via Lei Rouanet prestes a expirar, os fotógrafos Tarcísio Mattos e Eduardo Marques, sócios na Tempo Editorial, receberam um telefonema fundamental para essa história: concluindo o balanço do ano, e definindo recursos para investimentos em cultura, a Eletrobras decidiu aplicar no projeto da dupla parte do recurso, que viabilizou a produção do livro “Hercílio Luz: uma Ponte”.
Daquele momento até o dia do lançamento, realizado no Palácio Cruz e Sousa, passaram-se cerca de 45 dias, período em que, cuidadosamente pautados e orientados por Mattos, quatro jornalistas debruçaram-se sobre os quatro primeiros capítulos da obra. “Até então, em termos de literatura o que existia sobre a ponte se resumia a publicações técnicas ou românticas, e nossa idéia era fazer um livro quase que histórico. E conseguimos apresentar uma história consistente, que começa no tempo em que a Ponte não existia, passa pelo período de sua construção, pela influência que ela exerceu na vida da comunidade e chega até seu fechamento e a agonia da reforma”, explica Mattos. Fernando Goss escreveu sobre “Uma Ilha sem uma ponte”, um recorte do começo do século até o início da construção Hercílio Luz; Jeni Joana Andrade , sobre “Uma ponte para uma Ilha”, esmiuçando as questões técnicas, políticas e econômicas que envolviam a construção da Ponte; Daisi Vogel, sobre “A ponte e a cidade”, mostrando como a Ponte se integrou à cidade, do dia de sua inauguração até o fechamento; e coube a Flávio de Sturdze escrever “ Uma ponte em agonia”, que apresentou um recorte do momento do fechamento até a conclusão do livro, evidenciando a falta que ela fazia. Organizador da obra, Tarcísio Mattos pautou e orientou a equipe: todos os textos deveriam ter sempre a Ponte como centro, e todo o processo deveria ser produzido a partir dela.

No último capítulo, um time de artistas, críticos e pensadores apresentou – cada um em sua modalidade de expressão – diferentes olhares sobre a Ponte Hercílio Luz. Nesse espaço, sim, Tarcísio Mattos explica que havia uma “defesa emocional da Ponte, e eles a tratavam como um ser necessário, mais do que uma obra necessária. Ela foi vista e apresentada como um ente emocional na vida da cidade”. Obras de Patrícia Laus, Sérgio Vignes, Max Moura, Dalmo Vieira, Eduardo Marques, Elaine Borges, Suzete Sandin, entre outros, estavam ali, acrescentando doses de emoção à obra.
Paralelamente ao desenvolvimento do trabalho pelos profissionais, Mattos e Marques se debruçaram sobre a pesquisa do material iconográfico, e analisaram quase cinco mil fotos de Florianópolis nesse período, vindas de veículos de comunicação, arquivos oficiais e particulares.

Entre essas coleções estava a do fotógrafo Sérgio Vignes. Neto do engenheiro francês, Paul Vignes, que veio ao Brasil para trabalhar na construção de ferrovias e pontes, ele conta que seu pai, Ivan Vignes, era um apaixonado compulsivo por pontes. “Ele colecionava tudo sobre pontes: postais, fotos, matérias de jornal. E de um amigo que trabalhava no governo, ganhou uma série de fotos das obras da Hercílio Luz. Fotos antigas, históricas, diferentes e lindas….”, conta. Deste álbum particular vieram algumas das imagens selecionadas por Tarcísio Mattos, que chamou Vignes para participar, também da produção do livro. “Tenho orgulho de ter participado e ter sido, inclusive, um incentivador deste projeto. No lançamento, fiquei super emocionado quando vi, nas primeiras páginas, uma foto de meu pai acompanhada de um agradecimento especial”, lembra Sérgio Vignes, que guarda, embalado, um exemplar autografado naquela ocasião por todos os participantes, inclusive por Hercília Catharina da Luz, filha do ex-governador Hercílio Luz, falecida em 2011. “Guardo assim para preservar, para permitir que filhos e netos continuem tendo acesso a essa história”, conta.
Devido às pesquisas realizadas na pré-produção e todo o material lido durante a finalização do projeto, Tarcísio Mattos tornou-se um profundo conhecedor das histórias antiga e contemporânea da Ponte, e lembra que durante muito tempo foi, inclusive, fonte de jornalistas que buscavam informações e material sobre ela. “Considero esse livro um dos feitos mais legais de minha vida”, finaliza.






