Fernando Marcondes de Mattos… por ele mesmo

EM 2O23, ano em que completou 85 anos, o empresário Fernando Marcondes de Mattos fez um exercício de memória e reflexão e registrou – literalmente de próprio punho – um pouco de sua história. Marcondes conseguiu “pinçar” nessas mais de oito décadas, fatos, momentos e situações que contribuíram para formar um homem franco, corajoso, empreendedor e focado, sempre a partir da certeza de que “sorte” se constrói.
Transcrito, o texto foi formatado e impresso como um livreto, e distribuído a um pequeno grupo de pessoas amigas. Escrito não para ser um manual do empreendedor, “notas sobre a minha vida” é quase que um olhar pelo retrovisor…. quando se enxerga com uma posição privilegiada o que já passou enquanto se segue em frente.
A história é bem resumida, com certeza. Mas tendo sido escrita pelo próprio Fernando Marcondes de Mattos, esse fato não chega a ser uma surpresa, pois como ele próprio registra nas frases finais de seu escrito, “poupei-me no uso de palavras, sempre pensando que, de regra geral, se as mulheres usam no dia a dia o dobro das palavras dos homens, entre estes usei a metade”.
Na edição 93, a RM reproduziu o texto original do livreto. Novamente, não é um manual. Mas, sim, um grande exemplo!

fotos ACERVO PESSOAL | MARCO CEZAR | LAURA SACCHETTI

Até os meus 17 anos nada aconteceu de significativo na minha vida. Mas vou começar falando desse tempo – que termina em 1957 com o meu deslocamento para Florianópolis -, pois foi nele que surgiu o meu caráter e as minhas aptidões.
Nasci em 1938. Há 85 anos. Um ano antes da ocupação da Polônia pelos alemães de Hitler, deflagrando a 2ª Grande Guerra Mundial. Na verdade, só fui saber dessa deflagração décadas depois, pois onde morávamos nos meus primeiros anos de vida, na cidade de Bom Retiro, na serra catarinense, não havia jornal, rádio nem televisão, obviamente. A cidade não tinha energia nem água encanada, muito menos esgoto, a privada era no quintal.
Em compensação, tinha muita fruta à disposição, ou no nosso terreno ou na vizinhança. Até hoje, lembro-me dos marmelos e ameixas brancas. Tudo era colhido nos pés. Hoje, Bom Retiro, junto com São Joaquim, possui os melhores vinhedos de Santa Catarina e também os melhores vinhos.
Com 8 ou 9 anos, meu pai, que era juiz de direito, me deu um petiço (pequeno cavalo). De vez em quando me indago quem leva quem leva mais vantagem: o menino que ganha um computador nos primeiros anos escolares ou eu, que ganhei meu petiço. Afirmo que se tivesse que escolher entre um e outro escolheria o cavalo, que desenvolve coragem, decisão, coordenação e comando, e isso não tem valor para uma criança, como foi para mim.
Como comprar um cavalo é complicado e caro nos dias de hoje, sugiro que os pais troquem o cavalo e levem seus filhos para passeios de bicicleta, esportes competitivos, corridas nos parques ou qualquer outro esporte.
De Bom Retiro fomos para Curitibanos, também na serra catarinense, igualmente sem água, energia e esgoto. Ambas as cidades com zero grau no inverno. Como não tínhamos televisão que informasse as condições meteorológicas, achava aquilo muito natural.

Tanto numa quanto noutra cidade, a água era bombeada dos poços. Na nossa casa, o encarregado do serviço era eu. Meu pai não tinha condições físicas, pois lhe faltava um pulmão, extraído para sobreviver em meu nome e do meu irmão mais velho. Ou seja, sem querer fiz minha academia já com poucos anos de idade. Atualmente me sofistiquei: faço na academia no Costao com personal trainer e ar-condicionado.

Fernando Marcondes e a mãe, Maria de Lourdes | Foto: Acervo pessoal

Em Curitibanos treinei artilharia. Melhor dizendo, usava como os outros meninos um estilingue para acertar as pinhas das araucárias que ainda existiam até em abundância. Íamos a cavalos. Também em Curitibanos convivemos com a insegurança. Ainda era comum a resolução de problemas a bala. Afinal, essa região foi disputada por mais um séculde o pelos estados de Santa Catarina e do Paraná, gerando a famosa Guerra do Contestado. Embora a questão tivesse sido resolvida em 1916 em favor de Santa Catarina, ainda se sentia o cheiro de pólvora. Meu pai, como juiz de direito, armazenou na nossa casa muitos revólveres, quase todos que calibre 38. Meu pai não tinha medo e agradeço-o por me herdar essa virtude.
De Curitibanos fomos, em 1950, para Jaraguá do Sul, cidade industrial do norte catarinense, época em que a Weg nascia e onde conheci energia elétrica pela primeira vez. Nossa casa ficava à beira do rio Itapocu. Lá moramos por quatro anos. Ali troquei o cavalo por uma bicicleta. Quase todos os dias jogava futebol ou nadava no rio Itapocu, de águas límpidas e cascudos em abundância. Ambos se foram com avanço da civilização malconduzida. Jogava futebol bem e me sobressaia na natação. Vez ou outra chegava a nadar 2 km sozinho naquele belo rio. Sou grato a Deus por proporcionar-me essas oportunidades. Tínhamos também uma canoa de fundo chato que usávamos quase que diariamente. Certa vez, com mais dois colegas, fui até Corupá a montante do rio, distante 20 km.
Em Jaraguá, terminei o equivalente ao atual primeiro grau, no excelente colégio Marista. Era um aluno estudioso. Creio que completei o ginásio (hoje, 1º grau) sempre em primeiro lugar.
Todas as casas em Jaraguá usavam fogão a lenha. A cidade tinha energia, mas não gás. A solução era arrumar lenha. Meu pai me induziu a cortar lenha necessária para nossa casa. Comprávamos as toras de 10 a 15 cm espessura; eu as serrava em pedaços de 30 cm de comprimento e depois, com um machado, abria os pedaços em lascas. Fiz isso durante quatro anos. Para tanto, meu pai me pagava por tora. Também me pagava para engraxar os seus sapatos. Foi uma lição muito importante para mim, além de saudável para meu corpo de adolescente.

De Jaraguá, meu pai foi transferido para Laguna onde cursei a Escola Técnica do Comércio (ensino médio) – que era muito precário. Salvei-me no português e na matemática, matérias nas quais tive excelentes professores que me deixaram marcas que trago até hoje.
Nos cinco anos em que morei na Laguna, tal como aconteceu em Jaraguá, Curitibanos e Bom Retiro, pratiquei muito esporte. Jogava futebol ou ia nadar no Mar Grosso. Não era mais preciso serrar lenha, todavia, outra incumbência me esperava: lixar, consertar ou envernizar peças que meu pai recolhia para montar o museu Anita Garibaldi. Valeu a pena, pois o museu é uma das relíquias da cidade.
Já me preparando para transferir meu domicílio para Florianópolis, onde tentaria o ingresso na Faculdade de Direito, eis que meu pai um dia me chama e faz a seguinte sugestão: meu filho por que não fazer um curso de datilografia? Eu queria Faculdade de Direito – não datilografia -, mas não quis contrariá-lo e fiz o curso no Colégio Stella Maris. Depois de finalizá-lo, cheguei à conclusão que precisava de mais treinamento. Peguei uma apostila de orientação para concurso do Banco do Brasil de 200 páginas e datilografei-a por inteiro.
Feito isso, fui para Florianópolis levando minha mudança: uma pequena mala com dois pares de sapato, dois conjuntos de roupa, uma blusa, um chinelo, produtos de asseio, alguns livros e a máquina de escrever que meu pai me deu e que usei no treinamento. Estava encerrada a primeira fase da minha vida semelhante à maioria dos jovens.
Cheguei em Florianópolis para morar numa pensão com mais dois num quarto com divisórias de madeira e apenas um banheiro para cerca de 10 moradores. Para mim, estava tudo bem, exceto com relação à comida que ficava a desejar.
Através de contatos políticos, meu pai conseguiu-me um emprego no Senai. Lá fui eu me apresentar com a máquina de escrever que iria mudar a minha vida. Comecei como auxiliar administrativo, recebendo pouco mais de um salário mínimo.
Não demorou muito para o diretor do Senai, Alcides Abreu – cuja genialidade eu não demoraria a descobrir – me pedisse para datilografar alguns textos. Depois outros textos e muitos outros. Não tardou, eu estava datilografando todos os textos usados pelo candidato Celso Ramos ao Senado em 1958, quando foi derrotado, e ao governo do Estado em 1960, quando saiu vencedor. Textos estes quase todos preparados por Alcides Abreu – seu guru nos assuntos da área econômica. Além de datilografar, eu era uma pessoa de confiança, proativo e “pau pra toda obra”. Na datilografia, atingi alto nível de desempenho com sete toques por segundo. Certa vez alguém quis testar-me pedindo que eu deixe datilografasse um texto usado no concurso do Banco do Brasil. No tempo determinado no concurso, datilografei o texto duas vezes.

João Marcondes, pai de Fernando (à esquerda), o tio, Wilson Abraham, e Fernando com o filho Felipe no colo, em seu primeiro ano de vida | Foto: Acervo pessoal

Celso Ramos assumiu o governo em janeiro de 1961, mesmo ano em que me formei em Direito, penso que entre os melhores.
A história da máquina de escrever ensinou-me um axioma que uso com frequência: para o progresso de uma pessoa devem acontecer três coisas: primeiro, surgir uma oportunidade; segundo, perceber a oportunidade e, terceiro, estar preparado para ela.
No governo, Celso Ramos indicou-me para participar de um curso da Comissão Econômica para América Latina – Cepal, das Nações Unidas, na cidade do Rio de Janeiro, com duração de cinco meses intensivos, de agosto a dezembro de 1961.
Retornando, tornei-me seu assessor econômico, sob a liderança de Alcides Abreu, e também assistente técnico do Besc, banco recém-criado. Exercia múltiplas tarefas. Por força do destino, mudei minha rota, engavetei o diploma de advogado para dedicar-me às áreas de economia e administração.

Iolanda Marcondes de Mattos e o filho, Felipe | Foto: Acervo pessoal

Em 1963, casei-me com Iolanda no Rio de Janeiro, com quem vivi durante 57 anos, até o seu falecimento. Ainda em 1963, o Governador Celso Ramos me convidou para acompanhá-lo em viagem aos Estados Unidos. Além do governador, seu filho e Alcides Abreu com suas esposas integravam a comitiva; eu e outro assessor, sem as esposas. Deixei minha mulher Iolanda esperando a nossa primeira filha, Fernanda. Visitamos vários estados e, em Washington, a Casa Branca e a Casa da Moeda. Participamos de algumas reuniões e numa delas, na OEA, fomos informados do atentado que tirou a vida de John Kennedy. Assisti ao seu funeral defronte à Casa Branca.
Na sucessão de Celso Ramos, trabalhei intensamente para a candidatura de Alcides Abreu, candidato declarado do Governador. Tramas políticas acabaram indicando outro candidato. Revoltado, redigiu uma carta ao Governador pedindo meu desligamento dos dois cargos. Fiquei desempregado.
Poucos meses depois – eu já fora do governo – o governo militar pediu para Celso Ramos indicar um profissional para assumir a diretoria financeira da Sociedade Termelétrica de Capivari – Sotelca, em Tubarão, no sul de Santa Catarina. O governador acabou me indicando lembrando-se provavelmente dos serviços que prestei o seu governo e também como forma de compensar o meu gesto político radical, mas de grande conteúdo ético.

Fernando Marcondes entre as filhas Fernanda e Flávia | Foto: Marco Cezar

Lá fui eu para Tubarão com minha mulher e a nossa filha Fernanda.
Quatro anos depois, o vice-ministro de Energia e o presidente da Eletrobras (na ocasião, essa empresa era muito poderosa) chamaram-me para um almoço no Rio de Janeiro. Convidaram-me para fundar a Eletrosul e assumir a diretoria financeira, e que somente com a minha concordância criariam a empresa para cobrir os três estados do sul, nos moldes de Furnas no sudeste e Chesf no nordeste.
Aceitei e nos mudamos para o Rio de Janeiro, já agora com a segunda filha Flávia, onde moramos por sete anos até a transferência da empresa para Florianópolis autorizada pelo então presidente Ernesto Geisel à vista de um documento sobre o assunto preparado sob minha coordenação, sempre com ajuda de Glauco Corte, que foi meu adjunto por 15 anos desde a Sotelca. Nessa cidade, nasceu nosso terceiro filho Felipe.

Nos últimos anos, a Eletrosul tinha orçamento de investimento de 1 milhão de dólares por dia, cujas recursos eu captava na Eletrosul e no exterior junto ao Banco Mundial e BID, e cujos desembolsos eu autorizava.
Certa vez, apareceu em nosso apartamento uma grande caixa contendo um televisor, lembrança de uma empreiteira. De imediato, pedi para o meu motorista devolver o equipamento. Sempre segui a regra do meu pai: dizia ele que até uma galinha ou uma dúzia de ovos ele aceitava. Eu segui a regra aceitava até uma garrafa de whisky.
Já em Florianópolis, a diretoria de construção da Eletrosul aprovou o pagamento de um aditivo para uma empreiteira de muitos milhões de dólares, por força da alteração de materiais de escavação previstos no contrato original. Eu não concordei baseado na análise dos meus gerentes. A discussão dividiu a empresa. O diretor de operações ficou do meu lado e o presidente apoiou a posição do diretor de construção. O assunto, pela sua gravidade e importância, acabou subindo para os altos escalões da República, que decidiram pela minha demissão, depois de 10 anos e uma semana de diretoria, bem como do diretor de operações. É claro que logo em seguida pagaram os milhões para a empreiteira.

Poucos meses depois, o presidente da Eletrobras chamou-me para uma reunião na sede da empresa na cidade do Rio. Sentados somente nós dois, perguntou-me o que eu estava fazendo. Respondendo que estava desempregado convidou-me para trabalhar na Eletrobras, no seu próprio gabinete, o que aceitei lá ficando por cinco meses longe da família. Foi quando o governador Jorge Bornhausen convidou-me para assumir a presidência da Sidersul, com a missão de instalar uma siderúrgica em Santa Catarina, realizando um sonho acalentado durante décadas. Conseguimos a maior mobilização popular da política e da mídia de todos os tempos em Santa Catarina, mas fomos vencidos pelo cartel do aço brasileiro que não queria concorrentes.
Com a Sidersul encerrei em definitivo minha atuação em empresas públicas. Aí a política apareceu na minha vida.

Com o casal amigo Vilson e Vera Kleinübing, ele governador de 1991 a 1994. Durante parte desse período, Marcondes era seu secretário de Planejamento e Fazenda | Foto: Marco Cezar

Começou com Jorge Bornhausen, fundador do partido PL, que me convidou para compor a chapa de Vilson Kleinübing ao governo nas eleições de 1986, na condição de vice-governador. Aceitei, elaborei o plano de governo e percorri 10 mil km visitando todos os municípios do Estado.
Começamos a campanha com 5% das intenções de voto. Segundo o PT, o PFL (meu partido) cabia numa Kombi. Terminamos com 25%. Foi uma campanha vitoriosa que levou Vilson Kleinübing à vitória em 1990.
Novamente, elaborei o Plano de Governo, e acabei cedendo aos insistentes apelos do governador eleito para assumir a Secretaria de Planejamento e Fazenda.
Vilson Kleinübing foi eleito afirmando na campanha que queria modernizar o governo, seguindo proposta que lhe sugeri. Foi o que fez, consagrando-se como um dos governadores mais prestigiados do país.
Fiquei na Secretaria de Planejamento e Fazenda durante dois anos, deixando Iolanda cuidando do Costao. No primeiro ano, pagamos 15 folhas de pagamento, sendo 13 do próprio ano e duas do desastroso governo anterior. Quando assumi, a folha de salários correspondia a 112% da receita líquida do Estado. Quando saí, o percentual tinha se reduzido para 69%.
Deixei a secretaria para me dedicar exclusivamente às duas empresas que havia criado, a Inplac e o Costao do Santinho.

Fernando Marcondes com seus irmãos Marilda, Roberto e Mário (já falecido), e a mãe, Maria de Lourdes | Foto: Acervo pessoal

O surgimento da Inplac poderia servir de exemplo para jovens empreendedores.
A ideia da sua criação, hoje com 800 empregados, nasceu quando morava na cidade do rio e estava na Eletrosul. Na ocasião, meu irmão Roberto, 12 anos mais novo, estava se formando em engenharia mecânica na UFSC. Por que não criar uma empresa para ele presidir? Foi o que pensei. Como fazer?
Nos meus tempos de assessoria econômica no governo Celso Ramos, realizei alguns estudos, um deles voltado para a estrutura e perspectivas do parque industrial catarinense. Classifiquei os ramos industriais em dois grupos: o tradicional e o dinâmico. O tradicional reunia os ramos têxtil, confecções e alimentos, entre outros, que crescem historicamente abaixo do PIB do país. O dinâmico reunia os ramos mecânico, metalúrgico, eletrônico e plástico, entre outros. Minha primeira decisão: a empresa deveria pertencer ao grupo dinâmico, que historicamente cresce mais do que a evolução do PIB. Em seguida estudei todos os ramos que compõem esse grupo e me fixei no plástico.

Mas como concretizar a ideia se eu não dispunha de 1 centavo sequer? Resolvi pedir um empréstimo na Caixa, dando em garantia em hipoteca nosso apartamento em Copacabana, que eu havia comprado com a venda de nossa casa em Florianópolis. Estima que o empréstimo tenha sido de R$ 1 milhão em valores atuais. Coloquei em risco nosso único bem. No mundo empresarial, é muito difícil, quase impossível, não correr riscos.
De posse dos recursos criei uma holding com outra indústria plástica do Rio, 50% para cada parte. Passo seguinte, criei a estrutura de capital da Inplac, com 25 % de capital com ações ordinárias e 75% com ações preferenciais sem voto. Por consequência, com pouco capital teríamos o controle da empresa. Mais tarde, comprei a parte do sócio e fiquei com 100% das ordinárias. E como colocar 75% de ações preferenciais? Naquele tempo, o governo de Santa Catarina tinha um programa de incentivos: primeiro, o Fundesc, e depois o Procape, que permitiram que as empresas aplicassem um percentual do ICMS a ser arrecadado em projetos aprovados pelo governo. O projeto Inplac foi aprovado e os incentivos foram captados através de corretores que credenciamos.
Nascia a Inplac. Por cerca de um ano gastei minhas noites e finais de semana nesse projeto, felizmente vitorioso. Foi uma bela operação de engenharia financeira.

Foto: Acervo pessoal

Morando em Florianópolis, tinha por hábito visitar as praias, principalmente do Norte da Ilha, sempre aos sábados pela manhã, que lá chegava a cavalo (tive alguns cavalos durante anos), de carro ou mesmo caminhando ou correndo. Num desses passeios cheguei à Praia de Santinho. Gostei e voltei outras vezes, até que comprei um terreno – de pouca importância. Depois comprei outros. Ao final, foram 28, somando 1 milhão de m².
Os recursos vieram da Inplac, que apresentava uma favorável geração de caixa. Comecei sem nenhuma ideia. Lá pela metade das compras, comecei a pensar num resort. Estava nascendo o Costao do Santinho. Eu e Iolanda realizamos várias viagens ao exterior para conhecer o que estava acontecendo no mundo, principalmente em Marbella – Sul da Espanha -, na época a estrela do turismo internacional, movida a petrodólar. Visitamos também empreendimentos no Brasil. Contratamos arquitetos que desde cedo começaram a trabalhar.
No dia 13 de dezembro de 1991, inauguramos a primeira etapa do projeto. Outras etapas seguiram-se nos 10 anos seguintes. Nos seus dois primeiros anos, Iolanda tocava a empresa como presidente, enquanto eu exercia as funções de secretário de Planejamento e Fazenda no governo Vilson Kleinübing. Depois, Iolanda esteve dividindo a presidência comigo por 30 anos, até seu falecimento.
Hoje, o empreendimento emprega cerca de 1100 colaboradores, sendo considerado e eleito diversas vezes o melhor resort do Brasil.
Usando a marca Costao como âncora, em 2024 iniciaremos a construção de um resort em Estaleirinho (Balneário Camboriú) com 176 apartamentos, em regime de multipropriedade, em parceria com a família Tedesco, que executa ao lado o Multiparque, parque aquático de grande expressão.
A multipropriedade é o sistema em que o comprador adquire a propriedade em frações de tempo, no nosso caso, duas semanas de uso de um apartamento com escritura pública. Esse modelo se ajusta à tendência de famílias que desejam usufruir suas férias nos melhores locais do Brasil e do mundo sem ter que despender quantias elevadas na aquisição completa de uma única propriedade. A multipropriedade tem sido a grande revolução do turismo brasileiro nos últimos anos.

Foto: Marco Cezar

Outro projeto previsto para 2025, é o “Suítes do Mar” na Praia do Santinho, próximo ao Costão, cujos terrenos já adquirimos, que contará com 350 apartamentos, também em regime de multipropriedade, e terá um Clube de Praia voltado à Praia do Santinho para atender os seus proprietários.

Por volta de 2008/2009 um episódio foi marcante na minha vida. Com a crise mundial provocada pela falência da Lehman Brothers Holdings, os bancos brasileiros por vários meses recusaram-se a conceder novos créditos. As nossas empresas viram-se sem recursos sequer para cobrir folha de pagamento. O episódio afetou-me profundamente e a depressão foi inevitável. Fiquei alguns meses sem dirigir fora dos perímetros do Costao, busquei ajuda de psicólogo e centro espírita, que foram úteis, mas o que me salvou foi a leitura diária das 3600 páginas dos cinco livros que compõem a série “Hablar com Dios”, que havia comprado em Buenos Aires em 1991. Cerca de 30 minutos de leitura diária para cada um dos 360 capítulos, cobrindo todos os dias do ano.

Tenho também minha história como professor, a qual iniciou-se logo cedo. Formei-me com 19 anos, em 1961. Em 1962, decidi inscrever-me no concurso para professor da Economia Política da Faculdade de Direito, onde havia me informado. Concorri com dois candidato.
Ganhei o concurso e, em meados de 1963, assumi a cadeira com 24 anos – provavelmente o mais jovem da Universidade. Lecionei durante 20 anos.
Em 1967, inscrevi-me em um novo concurso, desta vez para disciplina de Administração Financeira e Orçamentária da ESAG, hoje integrada à UDESC. Novamente, concorri com dois fortes candidatos. Fui aprovado em 1º lugar, mas fiquei pouco tempo por falta absoluta de tempo.

Relação de amizade com o governador Jorginho Mello e com o prefeito da Capital, Topázio Neto | Foto: Laura Sacchetti

Desde quando era assessor econômico do governo Celso Ramos até os dias de hoje, escrevi algumas monografias e livros – escrever é um dos prazeres da minha vida. O primeiro, sobre a economia de Santa Catarina, em 1964, quando eu tinha 25 anos, e o último, sobre minha vida, em 2007, prestes a completar 70 anos. Nesse período, proferi mais de 100 palestras sobre economia e administração. Para melhorar meu desempenho no oratória, participei de um concurso de oratória, na faculdade. Depois, no Rio, tive outras aulas de oratória com o ator Jorge Dória, em seu apartamento em Copacabana.

Fui preso duas vezes pela Polícia Federal a mando, ambas, de decisões equivocadas da Justiça Federal, lastreadas em proposições ideológicas do Ministério Público que visavam exclusivamente atingir a minha pessoa, face à posição que desfrutava na sociedade catarinense. Uma prisão foi relacionada com o campo de golfe vinculado ao Condomínio Residencial Costao Golfe; a outra, com uma vala de escoamento de esgoto que foi coberta no terreno da Inplac a pedido da Prefeitura de Biguaçu. Outras pessoas também foram presas sob diversos motivos – alguns absurdos. Colocaram-me na cela que foi usada por Fernandinho Beira Mar, junto com outros dois, em beliches de concreto e banheiro para uso de cócoras à vista dos demais, com direito a duas horas de sol por dia. Lá fiquei três dias em cada caso. Não me perturbei nem me abati por um segundo sequer. Alguns choraram, eu não. Não havia motivo para fortes emoções e sim de revolta que nutro até hoje, lembrando-me de um personagem de Graciliano Ramos que dizia que a raiva se alimenta em fogo brando. Em ambos os processos, por óbvio, fui absolvido. A Justiça Federal e o Ministério Público Federal têm que estar sujeitos a penalidades por abuso de autoridade.

Com Anna Chris, com quem se casou em 2021 | Foto: Acervo pessoal

O esporte teve e tem uma participação decisiva na minha vida.
O cavalo em Bom Retiro e Curitibanos; o futebol, a natação e a canoagem em jaraguá e, igualmente, o futebol e a natação em Laguna foram de vital importância para meu corpo e meu espírito. Já na maioridade e repleto de afazeres não abandonei o esporte. Na década de 70, meu hobby nas férias era diariamente nadar muito e praticar pesca submarina com mergulhos em apneia de até quase 20 m. Na década de 80, voltei-me para as corridas. Diariamente acordando às 5h30, corria cerca de 6 km e, nos finais de semana, de 10 a 15 km, mesmo quando Secretário de Planejamento e da Fazenda. Religiosamente às 7h30 já estava tomando café com minha família. Sempre acordei cedo. Lembrava-me de Rui Barbosa quando afirmava que o sol nunca lhe pegou na cama.

Com um grupo de amigos, por três vezes – em ocasiões diferentes – Fernando Marcondes (o primeiro à esquerda no momento de chegada) deu a volta à Ilha, caminhando pelas praias e costões , em um percurso de 163 Km, completado em seis dias | Foto: Acervo pessoal

No dia 31 de dezembro de 1990, com 52 anos, corri a São Silvestre, com o meu falecido genro Marcos, então casado com Fernanda, depois de seis meses de intensa preparação com o técnico João Maria. Fiz a prova em 1 hora e 16 minutos, cerca de 12 km/h. Excelente tempo para idade que tinha. Além disso, procurei exercitar-me onde estivesse, viajando a negócios ou a lazer. Corri em Nova Iorque, Atenas, Amsterdam, Bruxelas, Buenos Aires, Marbella na Espanha, Washington, Paris, Barcelona, Tóquio, Düsseldorf, Lisboa, Assunção, Montevidéu, Punta del Este, Cittadella na Itália, Boca Raton e Miami, Cairo, Cape Town (na África do Sul) e Boston.

Nas décadas seguintes, continuei correndo, agora na praia e arredores do Santinho, onde passei a morar.
Junto com alguns amigos, demos a volta à ilha de Santa Catarina três vezes, por morros e praias, numa distância de 163 km em seis dias.
De alguns anos para cá, até 2020, exercitei- me dedicando cerca de 6 horas por semana entre academia e pequenas caminhadas. Cuido da alimentação, com muitas verduras, legumes e frutas; evito açúcares e frituras; tomo alguns suplementos alimentares com recomendação médica e busco tomar 2 litros de água por dia.
Tomando de empréstimo o tema do nosso SPA, persigo o desafio de acrescentar mais anos na minha vida e mais vida aos meus anos.
Para trabalhar meu cérebro – e também por prazer – leio bastante. Tenho 85 anos e espero chegar aos 90, mas já tenho problemas de saúde que apareceram em 2020.

Fernando Marcondes e Iolanda acompanhados das filhas, Flávia e Fernanda, e seus filhos | Foto: Acervo pessoal

Com 85 anos de idade, 66 anos de trabalho com carteira assinada, pergunto-me quais as conclusões dessa longa e atenuante jornada. Diria que são muitas.

Constatei que em grandes jornadas é muito difícil não sacrificar a família, pois a carne e o sangue dirão que é necessário abandonar a missão.

Soube que alguns momentos de sofrimento, com a solidão batendo à porta, só resta cicatrizar as fendas com o sal das próprias lágrimas.

Poupei-me no uso de palavras, sempre pensando que, de regra geral, se as mulheres usam no dia o dobro das palavras dos homens, entre estes usei a metade.

Aprendi desde cedo que o fraco não supera a derrota, ao contrário do vencedor que age como o gigante Anteu que, se que se do chão rolou sem forças mais forte do chão se ergueu.

Disciplinei-me a buscar o menor percurso para encontrar a solução de problemas.

Certifiquei-me que uma empresa só garantirá a sua perpetuidade se os seus membros formarem uma família, unida na disciplina, nos compromissos, no entendimento e na solidariedade.

Aprendi que o azar se administra e a sorte se constrói.

Acostumei-me a planejar o tempo para ganhar eficiência.

Senti que a coragem nas decisões é uma arma poderosa no caminho da vitória.

Constatei que o pessimista é um derrotado potencial e que o otimismo é a postura dos inteligentes.

Convenci-me que o guerreiro vencedor tem que cuidar do seu corpo, mente espírito com cuidado e devoção.

Percebi que sem visão estratégica, um indivíduo ou uma empresa não tem chance de sucesso.

Fiquei sabendo que a vida não é para principiantes.

Por fim, convenci-me definitivamente que a honra não tem preço.

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