texto LU ZUÊ
fotos MARCO CEZAR
Em 2O24, a RM9O “apresentou” ao público de Floripa o instigante e encantador trabalho de Wagner Kuroiwa, médico e artista plástico paulista que explora cores em sua intensidade, e experimenta texturas e técnicas variadas com extrema desenvoltura
(Foto de abertura: Kuroiwa em frente à sua obra criada a partir de radiografias soldadas, pintadas com verniz vitral e giz pastel | Foto Marco Cezar)
Naquela época, a ligação mais profunda de Kuroiwa com Santa Catarina estava no fato de que o filho, Bruno, residia na Capital, local normalmente escolhido para as férias da família. Passados quase dois anos, com o mesmo jeito sereno, acolhedor e sempre receptivo, ele comemora o sucesso de sua primeira exposição em Florianópolis e não esconde a felicidade de ter escolhido viver aqui. A mostra “Menor que meu sonho, não posso ser”, começou a ser pensada e produzida no estilo de ser do artista – de forma tranquila e discreta –, mas evolui para algo muito parecido com a explosão de cores presente em suas obras: um evento arrebatador. Se Kuroiwa tinha dúvidas sobre ser bem recebido, essas foram totalmente dissipadas também pelo grande número de pessoas que visitaram a exposição na sala Lindolf Bell (no Centro Integrado de Cultura – CIC), mas sobretudo pelo interesse despertado junto ao público, independentemente da idade.

Aberta oficialmente em 4 de julho, a mostra foi prorrogada por um segundo período de 30 dias, quando foi transferida para a sala Lindolf Bell II. Até então, já havia recebido mais de 10 mil visitantes e reunido um grande número de pessoas em três tardes de conversa com o artista. “Nem em meus mais otimistas sonhos eu poderia esperar um interesse tão grande. Isso me deixa ao mesmo tempo feliz e grato e me estimula a querer participar ainda mais ativamente do movimento artístico de Santa Catarina”, comemorou Kuroiwa. Generoso, o artista lembrou que tem comparecido a inúmeras exposições e declarou grande admiração pelos talentos que tem encontrado, e não escondeu o quanto esse tempo em Santa Catarina tem sido feliz e produtivo.

“É muito fácil a gente se apaixonar por Santa Catarina. O povo e a natureza são muito especiais, mas a harmonia entre um e outro é fantástica. Santa Catarina respira isso, e eu estou respirando essa sensação. Caminho ao ar livre e fico observando o mar, o céu, as aves…. tudo isso tem sido muito inspirador. Vejo temas em cada esquina, seja na natureza, na gente ou nas construções… muita cor e exuberância!”, explicou.
E, claro, toda essa inspiração vem se materializando na forma de arte. Na mostra do CIC, há uma série de trabalhos inspirados em paisagens e elementos culturais catarinenses, todos produzidos a partir da chegada de Wagner Kuroiwa em Santa Catarina.
A exposição no CIC
Nesta primeira mostra em solo catarinense, Wagner Kuroiwa apresentou ao público obras que mostram toda a sua versatilidade – ao transitar por diferentes técnicas – e o estilo muito particular de narrativa, que envolve o público como se cada quadro fosse um romance, repleto de personagens – curiosa e surpreendentemente, alguns deles só aparecem na segunda apreciação….na terceira… Isso, aliás, foi uma constante no CIC: quem foi uma vez à exposição, retornou para observar melhor o trabalho. “Sempre utilizo muitos elementos. É mesmo como se fosse um romance, onde existem muitas histórias paralelas, uma novela onde existem os protagonistas e, também, vários outros personagens. E com isso, espero despertar lembranças, reminiscências no público”, já havia dito o artista à Mural, na edição 90.

Entre as obras expostas, destaque para os trabalhos que combinam bordado sobre tela com pintura acrílica (demonstrando sua capacidade de reinventar linguagens artísticas), uma coleção produzida em solo catarinense e, claro, a magnífica imagem de Cristo, de 3,5 metros por 2,1 metros, criada a partir de radiografias soldadas, pintadas com verniz vitral e giz pastel. Impactante, sem dúvidas!

A receptividade foi tanta, que junto ao filho, Bruno, Kuroiwa decidiu promover uma tarde de conversa com o público – “Encontro com o Artista”. Surpresa: as 50 cadeiras colocadas na sala Lindolf Bell para acomodar os presentes não foram suficientes para as 150 pessoas que compareceram. Foi necessário um segundo evento, então com 100 cadeiras dispostas…. naquela tarde disputadas por 300 pessoas.

Um terceiro encontro foi realizado no dia 23 de agosto, desta vez em parceria com os organizadores da exposição “Laços de Amizade”, que celebra os 130 anos do tratado Brasil-Japão e os 45 anos da parceria Santa Catarina – Aomori, cidade japonesa, maior produtora de maçã naquele país, que ocupou a sala Lindolf Bell I a partir de 8 de agosto (leia abaixo).

Esses encontros (que contaram com sorteio de mimos e obras do artista!) evidenciaram a admiração do público pelo trabalho do artista, e foram repletos de questionamentos tanto sobre as obras em si, fontes de inspiração, desenvolvimento de técnicas e até pedidos de conselhos para quem está dando os primeiros passos na carreira. E apresentaram um Wagner Kuroiwa bem-humorado, acessível ao extremo e muito tranquilo (isso tudo não é surpresa para a Mural), mas também profundamente agradecido aos catarinenses.
E nós também agradecemos ao artista!

Amizade
Iniciada em julho, a partir de 8 de agosto a mostra “Menor que meu sonho, não posso ser” passou a ocupar a sala Lindolf Bell II, cedendo o espaço original para a exposição “Laços de Amizade”.
O que seria marcado apenas como uma transferência de local acabou por presentear o público com um lindo evento de parceria, que contou com a presença do cônsul do Japão, Yasuhiro Mitsui, do presidente interino da Fundação Catarinense de Cultura, Guilherme Botelho, e do secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Edgard Usuy (que representou o governador Jorginho Mello), celebrando o início de uma mostra com elementos que resgatam história, cultura e cooperação que uniram catarinenses e japoneses ao longo de décadas.

A apresentação musical de Felipe Hirono no Tsugaru Shamisen embalou o público durante a visitação, e ampliou a sensação de tranquila conexão entre trajes, acessórios, fotos e objetos de decoração japoneses, e as obras criadas por um artista de origem japonesa, que escolheu Santa Catarina para viver.
Coincidências existem?






