ACAP completa 50 anos

texto NÉRI PEDROSO


fotos ACERVO JULIANA WOSGRAUS e NÉRI PEDROSO | CAIO CEZAR | REPRODUÇÕES MARCO CEZAR

(Foto da abertura: os artistas Julia Steffen (esq.), Onildo Borba, o mais longevo associado, Meg Tomio Roussenq, curadora dos projetos, o presidente Gelsyr Ruiz e Maria Esmênia, vice-presidente da Acap. Foto: Mário Oliveira)

Criada em 18 de março de 1975, a Associação Catarinense dos Artistas Plásticos (Acap) celebra a data com uma agenda que se sustenta na memória, tradição e contemporaneidade, ativando em 2025 um conjunto de exposições para homenagear os fundadores: Franklin Cascaes (1908-1983), Eli Heil (1929-2017), Ernesto Meyer Filho (1919-1991), Martinho de Haro (1907-1985), Max Moura (1949-2009), Pedro Paulo Vecchietti (1933-1993), Rodrigo de Haro (1939-2021) e Vera Sabino.

A entidade hoje presidida por Gelsyr Ruiz e Maria Esmênia, vice-presidente, segue atuante no propósito de formação e divulgação das artes visuais em Santa Catarina.

Atualmente, a entidade reúne 47 artistas interessados nos conceitos do associativismo e nas buscas de pertencimento, produzindo desde a sua criação um campo de acontecimentos artísticos e afetivos que, ao longo do tempo, evoca o papel da arte e da crítica, das instituições, do mercado e iniciativas de formação técnica e educativa. Enfim, uma experiência que renova o campo simbólico com avanços e recuos, capaz de produzir discursos e poéticas, obras e fontes textuais, testemunhos de ações reveladoras de um passado de largo alcance em trajetórias e relações institucionais no âmbito estadual e nacional.

Um longevo trabalho associativo que, em sua história, exerce influências em outras cidades de Santa Catarina, estimula o surgimento de entidades, como a Associação dos Artistas Plásticos de Joinville (Aaplaj), instituída em 1982, a Associação Blumenauense de Artistas Plásticos (Bluap), em 1986, e a Associação de Artistas Plásticos de Rio do Sul (Aaplars), em 1987, entre outras, que seguem até hoje o modelo da Acap reunidas em torno da Federação das Associações de Artistas Plásticos do Estado de Santa Catarina (FAAPSC) que, desde 2003, congrega e busca qualificar e empreender em favor “da construção de uma linguagem ética em benefício das artes no Estado”, focada no estabelecimento de políticas para o setor.

Nos 50 anos da Acap é possível apontar três momentos distintos. O primeiro, o inaugural, com a presidência de Martinho de Haro; o segundo, nos meados dos anos 1980 e 90 e o terceiro, o atual, quando a diretoria se empenha em estabelecer propósitos curatoriais que resultam no conjunto de seis exposições em articulação com as mais importantes instituições da cidade. Os anos 80 despontam em razão da presidência de João Otávio Neves Filho (1946-2018), o Janga.

Janga e Juliana Wosgraus: ambos artistas e presidentes da Acap em meados dos anos 1980

Artista, marchand, crítico de arte, gestor, um articulador astuto que faz uma gestão combativa, de aprimoramento e da visibilidade da produção artística. Certamente o momento mais efervescente da Acap que segue com Juliana Wosgraus, um contínuo de atividades em favor da atualização.

Justo essa energia aciona neste momento o arquivo fotográfico de Marco Cezar e a memória de Juliana Wosgraus, testemunhas deste período efervescente no centro de Florianópolis, pois em contrato de concessão com o governo do Estado, a Acap funciona entre 1985 e 2009 no prédio da Alfândega, construção valiosa sob o ponto arquitetônico e histórico, um símbolo cultural da cidade.

Com intensa agenda, o espaço expositivo torna-se referência nos anos 80 e 90 em discussões sobre arte e cultura, com uma comunicação entre os seus pares e o público, a oferta de cursos de formação, ações educativas, intercâmbio com outros centros regionais e nacionais, circulação e validação de obras e artistas do Estado e do Brasil. A entidade ajuda a estruturar o sistema, envolvida com gestores, museus, galerias, fundações, críticos, colecionadores, jornalistas, comissões e autoridades governamentais.

Obra de João Olíbio, um dos associados da ACAP

A Acap acaba por interferir no campo das ideias e avanços nas demandas de atualização. Realiza exposições e ações provocadoras, indicativas de avanços em alguns casos, com outras materialidades e propostas perturbadoras para o público ainda conservador. Instalações, performances, arte cinética e vídeos misturam-se aos desenhos, à cerâmica e aos outdoors, como se vê em “Arte na Rua I”, “Resumo 85 – Arte Jovem Catarinense”; em 1986, “111 Artistas Pela Paz”, “Rever 86” e “Tendências Contemporâneas”, “Arte na Rua II” e outras exposições relevantes como a de Tomie Ohtake (1913-2015) e Alfredo Volpi (1896-1988).

Enfim, um período de vanguarda que entre altos e baixos gerenciais enfrenta contradições, conflitos e uma dissidência radical em 1994 com a Associação dos Artistas Plásticos de Santa Catarina (Aaplasc) que estabelece um limite entre os ditos contemporâneos e os nem tanto, um processo que se estende de certo modo até a atualidade, envolvendo a história da entidade numa espécie de cancelamento, verificado inclusive em bibliografias e portfólios de artistas que raramente mencionam a aderência pontual no trabalho em defesa da categoria. Alguns deles aparentemente estabelecem hierarquias de valor na produção das obras, confundindo conceitos de análise entre poéticas e o resultado formal dos propósitos estatutários de entidades, movimentos e organismos associativos que, bem ou mal, tangenciam o valor das ações coletivas vinculadas ao desejo de ser artista e os seus efeitos nas noções de pertencimento e no tecido social do tempo contemporâneo.

Arte em movimento

Juliana Wosgraus – Presidente da Acap entre 1987 e 1988

Juliana Wosgraus | Foto: Caio Cezar

Um momento profícuo para as artes visuais e cultura geral em Floripa na segunda metade dos anos 80, com alcance no Estado todo. Assim era a Acap no período em que frequentei a associação como aspirante a artista plástica, depois diretora de vídeo e, por fim, presidente.

Como tínhamos espaço físico permanente, no prédio da antiga Alfândega, cedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Fundação Catarinense de Cultura (FCC), diferentes gerações de artistas se reuniam no dia a dia para conversar sobre arte, trocar ideias. Em contraste com a edificação histórica, ali se mostrava o que havia de melhor na arte contemporânea catarinense. Exposições individuais e coletivas com obras de Luiz Henrique Schwanke (1951-1992), Eli Heil, Meyer Filho, Vera Sabino, Janga – o pai desta era e quem me escolheu pra ser sua sucessora.  Os novos, na época, Flávia Fernandes, Fernando Lindote, Neno Brazil, Waldir Agostinho e outros tantos.

Juliana Wosgraus, Tomie Ohtake e a artista Lygia Roussenq Neves

Por meio de contatos pessoais, eu trouxe não só uma exposição da legendária Tomie Ohtake, como a artista em pessoa para o vernissage e mais alguns dias degustando ostras pela Ilha.

Também conseguimos promover intercâmbios com exposições de artistas de Rio do Sul, Joinville e outras cidades, enquanto os daqui expuseram nelas.

Momentos marcantes ainda com o projeto Piano no final da tarde, com o piano Yamaha do Teatro Álvaro de Carvalho (TAC) emprestado, e por dois meses tínhamos recitais. Também levei banda de rock, lançamento de livros, e as primeiras instalações de arte e performances.

Entre 1986 e 1988 a efervescência era grande com parcerias com o Masc e seu diretor, Harry Laus, grande crítico de arte. 

A mídia reverberava e quanto mais a Acap era divulgada e reconhecida, mais os artistas produziam. O que plantamos ali se perpetua até hoje, porque foi mais do que um espaço ou associação, foi um movimento artístico consistente e inspirador. Viva a Acap, hoje por outros caminhos, mas sempre viva.

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