texto LU ZUÊ | fotos MARCO CEZAR
É EVIDENTE QUE A TECNOLOGIA ESTÁ REDESENHANDO AS RELAÇÕES, PROPONDO NOVOS MODOS DE FAZER EM TODAS AS ÁREAS DA SOCIEDADE E COLOCANDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO PARTE ATIVA NESSE PROCESSO
Isso vem acontecendo de forma cada vez mais perceptível, e também por isso os debates sobre seus usos e processos não devem ficar restritos aos pequenos grupos. É necessário derrubar pré-conceitos e reforçar e levar adiante a certeza de que precisa ser do julgamento humano o protagonismo nessa caminhada. Esse é o propósito da ConfrarIA for Women, um movimento criado por um grupo de mulheres com atuação destacada em áreas específicas (conheça as confudadoras no final do texto), que muito além de “ensinar” conceitos de IA, tem como objetivo uma compreensão mais geral, real e estratégica da inteligência artificial, sem necessariamente entrar na parte técnica da programação, mas também sem ficar apenas na superfície do uso prático. Ou seja: apresentar às mulheres a IA de maneira abrangente, distante tanto do “medo que paralisa” quanto do “encantamento ingênuo” que pode iludir e confundir.
“Há mais de um ano, eu vinha procurando uma formação que me desse uma visão mais ampla sobre IA, e nessa busca encontrei muitos cursos voltados à tecnologia da informação, à programação, ou em outro extremo, propostas muito superficiais, baseadas apenas em comandos prontos. Não era isso que eu queria, pois sentia uma grande necessidade de entender melhor a ferramenta em si, seus limites e suas possibilidades”, explica Larissa Heineck de Vasconcellos, advogada, autora do livro “Antes do Prompt” e fundadora da ConfrarIA. Ciente da importância do movimento para as mulheres, Larissa destaca que a proposta é vencer fronteiras, e por meio da troca de experiências garantir a capacitação e a representatividade feminina na área, preenchendo uma lacuna até agora histórica no setor tecnológico.
“Acredito que uma característica muito presente nos grupos femininos seja a capacidade de transformar conhecimento em troca. As mulheres podem contribuir com experiências, sensibilidades e perspectivas que também precisam participar da construção desse futuro”, explica, acrescentando que ao reunir mulheres de áreas diversas com repertórios complementares, o movimento amplia a conversa e deixa claro que a Inteligência Artificial não será bem compreendida se o debate for amparado apenas no ponto de vista técnico. Afinal, a IA não é assunto de uma única área e envolve profissões e temas diversos, como direito, comunicação, educação, saúde, gestão, relações humanas, ética, mercado de trabalho, criatividade, liderança e tantos outros campos.
Estar preparada não é uma escolha
Qualquer pessoa que deseje participar conscientemente desse universo em formação (e mutação) precisa estar preparado para os impactos da IA. E preparo não significa “apenas” saber usar ferramentas, mas desenvolver repertório, pensamento crítico, capacidade de julgamento e vontade de aprender. E de acordo com Otávio Pinheiro (único homem a integrar o grupo que fundou o movimento), nesse processo as mulheres estão muito preparadas.
Mestre e MBA em Inteligência Artificial pela PUC-RS (com Minor em IA pela Columbia University), Pinheiro atua como consultor estratégico palestrante e mentor, e é enfático: as mulheres chegam mais preparadas. “Vejo isso na prática. Elas estudam antes de opinar, testam a ferramenta de verdade, anotam, voltam e perguntam de novo. Isso muda o resultado. Existem três coisas que pesam muito nesse jogo da IA e que eu observo com mais frequência nelas: escuta, leitura de contexto e cuidado com o detalhe”, analisa.
Segundo o mentor das ConfrarIA, IA hoje não é sobre saber programar, mas sim sobre saber fazer a pergunta certa e desconfiar da resposta, e quem escuta bem o problema do outro escreve um prompt melhor, desenha um processo melhor e percebe rápido se e onde o modelo está errando.

“As mulheres dominam essas capacidades. Na ConfrarIA, eu vi chegarem mulheres dizendo que não eram da tecnologia e três meses depois estarem à vontade, automatizando o próprio escritório. Isso não foi talento mágico: foi consistência”,
afirma Otávio.
O fator humano como diferencial
As discussões propostas pelo “time” de cofundadoras da ConfrarIA evidenciam que essas grandes transformações não acontecem apenas por causa das ferramentas, mas pelas escolhas humanas feitas ao utilizá-las.
Advogada e administradora de empresas, Caroline Locks é cofundadora e sócia da PrimoreRH (consultoria especializada em RH Estratégico), e explica que na avaliação de pessoas, por exemplo, a IA pode apoiar a consolidação de dados, identificação de padrões, análise de indicadores de desempenho e construção de relatórios mais rápidos e consistentes. “Mas que fique claro: apoiar! O melhor uso da IA em Gestão de Pessoas acontece quando ela nos ajuda a sermos mais estratégicos, sem perder aquilo que torna o trabalho verdadeiramente humano: a capacidade de compreender pessoas em sua singularidade”, defende.
Criadora da IA Léia (assistente jurídica especialista especificamente no Direito brasileiro, baseada em IA) a advogada Priscila Guimarães Duarte tem atuação destacada na interseção entre direito, tecnologia e produto, e trouxe essa vivência para a ConfrarIA. “Acredito que o desafio mais sutil que enfrentamos ainda seja o ambiente, pois percebo que muitas vezes as mulheres precisam provar competência antes mesmo de serem ouvidas. Eu escolhi responder a isso com resultado. Minha formação jurídica me deu uma visão de risco e governança, e a tecnologia me permitiu transformar essa visão em produto”, explica. Segundo ela, ocupar esse espaço também é uma forma de mostrar que as mulheres precisam não apenas usar a tecnologia, mas também construí-la, liderá-la e definir os problemas que ela vai resolver.
E isso absolutamente não deve mecanizar as relações. Atuando em um escritório de advocacia tradicional com foco em atendimento humanizado, Bruna Cenci defende que a IA pode tornar a advocacia mais estratégica, eliminando tarefas burocráticas no dia a dia e ganhando tempo para que os profissionais possam focar justamente no relacionamento próximo com o cliente.
“Eu acredito que em muitas pessoas existe uma ideia equivocada de que tecnologia e atendimento humanizado estão em lados opostos. Eu mesma passei por uma resistência a inserir a inteligência artificial no meu ambiente de trabalho. Porém, entendi que quando utilizada de forma responsável, a inteligência artificial pode justamente nos devolver algo que é cada vez mais valioso na advocacia: tempo”, argumenta.
Nesse contexto, ela explica a ConfrarIA como um espaço muito importante de troca, aprendizado e encorajamento, que permite não apenas compartilhar conhecimento, mas também criar um ambiente seguro para experimentar, questionar e compreender de que forma essas novas ferramentas podem ser incorporadas às realidades profissionais de cada pessoa.

A Confraria em ação
Além do perfil no Instagram – que reúne conteúdos e atualizações acerca da Inteligência Artificial – de forma muito acessível e dinâmica – o grupo de WhatsApp do movimento vem crescendo de forma orgânica e promovendo intensas e proveitosas discussões. Há compartilhamento de artigos, matérias jornalísticas, opiniões, dicas de eventos… e cada tema gera uma infinidade de comentários e estimula “longas conversas”. “Trata-se de um grupo contínuo, e o feedback recebido tem sido gratificante. Os temas lançados ali acabam gerando interesse e as participantes buscam sempre mais informações, pesquisam para interagir com mais segurança e compartilham os resultados”, comemora Larissa, acrescentando que aos poucos, até as mais quietinhas sentem-se à vontade para compartilhar suas manifestações.
E estão em fase de organização os encontros em formato de networking, que funcionem tanto como ambiente propício para abordar conteúdos relacionados a temas pontuais, quanto para apresentação e prestação de serviços. “Pelo grupo e pelo feedback que recebemos, identificamos que existe uma infinidade de interesses e demandas. Nosso objetivo é que o movimento caminhe sempre alinhado às reais necessidades das participantes, funcionando como um canal direto e resolutivo para acolher e atender a questões que antes ficavam sem resposta”, finaliza Larissa.

COFUNDADORAS

BRUNA CENCI é advogada graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Bruna Cenci tem pós-graduação em Direito Processual Civil e especialização em Direito Digital e Compliance.
Atualmente, integra a equipe do escritório Meggiolaro Cenci e Rizzi Advogados Associados, em Bento Gonçalves/RS. Rigor técnico, visão estratégica e atendimento próximo e humanizado são características de sua atuação profissional, e Bruna acompanha de perto os impactos da tecnologia e da Inteligência Artificial nos universos jurídico e empresarial, convicta de que a inovação está redefinindo a forma como pessoas, empresas e instituições se relacionam, e exigindo profissionais cada vez mais preparados, adaptáveis e críticos.

CAROLINE LOCKS é advogada e administradora de empresas. Pós-graduada em Psicologia Organizacional e Coaching, construiu sua trajetória executiva nas áreas de Gente & Cultura e Marketing, com forte atuação em Endomarketing e Experiência do Profissional.
É cofundadora e sócia da PrimoreRH, consultoria especializada em RH Estratégico, com foco na Jornada do Profissional e no Desenvolvimento de Lideranças. Atua no fortalecimento da cultura organizacional, na construção de ambientes de alta performance e no aumento do engajamento, da retenção e dos resultados sustentáveis das organizações.

GABRIELA SILVEIRA é produtora audiovisual, diretora, fotógrafa e compositora, tem mais de dez anos de experiência na criação de narrativas audiovisuais.
Atenta a detalhes, tem paixão por contar histórias e desenvolve projetos que conectam criatividade, comunicação e propósito. Ao longo de sua atuação vem construindo uma sólida carreira marcada pela versatilidade e pela sensibilidade. Atualmente, dedica-se ao desenvolvimento de projetos que valorizam a comunicação humana, a criatividade e o poder que as boas histórias têm para informar, emocionar e, certamente, para transformar.

LUÍSA DE VASCONCELLOS BAPTISTA é cofundadora e diretora de relações institucionais da ConfrarIA for Women. É graduada em Direito e especialista em Governança de Inteligência Artificial. Atua como assessora jurídica no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).
Já trabalhou em escritório de advocacia e também em empresa de tecnologia focada em cibersegurança e conformidade. Esse trânsito em diferentes ambientes contribuiu com a construção de um olhar híbrido entre o jurídico e o técnico, hoje dedicado a discutir e disseminar a implantação e governança de IA no Brasil. É cofundadora e diretora de relações institucionais do ConfrarIA for Women.

PRISCILA GUIMARÃES DUARTE é advogada com especialização em Direito Internacional do Comércio, Priscila é fundadora da Civic Al (uma legaltech e govtech dedicada a escalar o acesso à justiça e aos serviços públicos por meio da inteligência artificial), é diretora da Câmara de Comércio Brasil-Israel em Santa Catarina e fundadora do movimento “IA para Todos”.
Atua na interseção entre direito, tecnologia e produto, desenvolvendo soluções que simplificam a compreensão e o exercício de direitos dos cidadãos. Criou a IA Léia – primeira assistente jurídica especialista especificamente no direito brasileiro projetada para traduzir o “juridiquês” em linguagem acessível, a fim de ampliar o acesso à informação jurídica e aos serviços públicos.

ROXY SCOZ é especialista em conectar marcas, pessoas e experiências. Empresária e estrategista, construiu sua trajetória entre o marketing digital, os eventos, o branding e a criação de conexões relevantes.
Desenvolve projetos que unem criatividade, posicionamento e relacionamento, e seu trabalho é marcado por sensibilidade estética, visão estratégica e atenção às experiências que permanecem na memória. Ao lado de Caio Coppolla, integra o Coppolla Access representando o estado de Santa Catarina. Faz parte da empresa FILM (de Portugal), onde atua no desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial.





