RETRATOS E VOZES

Juntando de forma singular imagens e palavras, “Enseada de Brito – Gente e memória” conta um pouco da história de uma das comunidades açorianas mais antigas do litoral catarinense

texto COM INFORMAÇÕES DE ANDRÉ SEBEN
fotos CAIO CEZAR

Uma eficiente “customização” da expressão “Uma imagem vale mais que mil palavras”, o livro “Enseada de Brito – Gente e Memória” – lançado em 18 outubro na Casa da Cultura Açoriana da comunidade que empresta seu nome à obra – mostra na prática que imagens traduzem de forma sensível o que as palavras contam (neste caso, com singular poesia e ritmo).

Pois é a certeza do quanto elas se complementam e enriquecem uma à outra que faz o livro tão especial e generoso, ao dar corpo e voz a pessoas que fazem parte da história do local, reconhecido como um importante núcleo de tradição açoriana, e se mantém preservando casarões coloniais e vibrantes costumes culturais. A Enseada de Brito respira tradição e o livro registra isso tudo com sensibilidade e beleza.

O projeto surgiu a partir da iniciativa do arquiteto Márcio Carvalho, que propôs transformar em livro o material colhido em sua vivência junto à comunidade, que se transformou em paixão e gerou amizades para uma vida. “Nos três anos que convivo com a Enseada, contemplei uma experiência comunitária das mais bonitas e orgânicas. Quis que o livro reforçasse essa característica, com histórias de vínculo e afetividade”, conta Márcio. Objetivos alcançados de forma plena, harmônica e muito bela.
No texto, a jornalista e escritora Cláudia Aragón reúne depoimentos e relatos de trabalho, fé e celebrações que compõem o retrato de uma das comunidades açorianas mais antigas do litoral catarinense. E as fotos de Caio Cezar registram essa realidade, respeitando o jeito de ser e o cotidiano dos personagens.

Foto Caio Cezar

In memoriam
Seu Antônio
Manoel de Limas

… Mas sempre morou em frente ao mar, abrindo a casa de pau a pique com a chave de ferro que ele guardou como joia. Até os noventa e nove anos, o menino nascido quando a infância era só família, reza e sustento viveu na rua que leva o nome de seu pai, onde criou seis filhos, onze netos e onze bisnetos. Mantendo o oceano como pátio. Com memória farta e grato por tudo. Até fechar os olhos para sempre.

Foto Caio Cezar

“… A melhor coisa da Enseada é que ela não passa daquilo que é. Não sinto saudade de nada. Nem sei o que é um porre. A única coisa que fazia na juventude era tocar meu violãozinho, com umas músicas antigas de Santa Catarina, até me casar. Depois, fui da cantoria da Festa do Divino e das novenas, indo de porta em porta. Porque minha família sempre foi religiosa.”

Para compor a narrativa, Cláudia Aragón se apoia em vozes locais de diferentes gerações, dando espaço a características locais e detalhes de memórias agora registradas. “Este livro mostra o olhar das pessoas que vivem o lugar. Os lugares são feitos de pessoas e suas vivências. E é isso que quis retratar, a vida que pulsa na Enseada de Brito, em cada gesto, tradição e memória”, relata.
Na mesma direção, nas sessões fotográficas realizadas com os moradores Caio Cezar trabalhou em ambientes domésticos, espaços de culto e frentes de trabalho, com atenção aos ritmos e práticas comunitárias. “Estávamos na casa deles, em seu ambiente, todos com uma carga muito forte de vivência na Enseada. A solução da ‘luz de janela’ foi bastante explorada em função disso”, explica o fotógrafo.
Entre os personagens retratados está o empresário Marcelo Henrique da Silveira, o “Marcelo da Enseada”, coordenador da Comissão Pastoral e importante liderança local. Para ele, o livro cumpre o papel de memória: “Este é o primeiro livro a capturar a essência da nossa comunidade, eternizando a cultura de fé e pesca da região. É um registro que ficará para as próximas gerações”, destaca.

Foto Caio Cezar

Dona Olinda
Rosalina Dalri

Com a voz pequena, de tantas décadas vividas, Olinda Rosalina Dalri foi rápida e precisa ao revelar sua idade, no início de 2025: “Tenho noventa e um anos e três meses”. Todos vividos na Enseada.
…E, pela janela erguida em 1925, apesar dos olhos falhos, segue vigiando a capelinha São Judas Tadeu, no outro lado da rua.

SOBRE A ENSEADA
DE BRITO

A principal característica do local é mesmo a que foi dita pelo Seu Antônio: “A melhor coisa da Enseada é que ela não passa daquilo que é”. Fundada entre 1748 e 1750 e reconhecida como Patrimônio Histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no âmbito das Freguesias Luso-Brasileiras da Grande Florianópolis, preserva um traçado urbano com grande terreiro entre a igreja e o mar, característica singular na região. Originalmente chamada Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, a localidade segue procurando preservar seu conjunto arquitetônico e paisagístico como patrimônio cultural, aliado ao patrimônio imaterial, que é a força de sua gente.
O calendário local continua ancorado nas festas do Divino e celebrações de padroeiros, nas safras da tainha e do camarão, que regulam rotinas e encontros. Na arquitetura ainda são recorrentes as portas altas, janelas de guilhotina e pintura à cal.
Saberes práticos, como nós, preparo de iscas, cultivo de quintais e remédios caseiros, circulam entre gerações, sustentando um repertório de técnicas transmitidas pela experiência. Repleta de história, com uma comunidade acolhedora, a Enseada de Brito é uma rara oportunidade de mergulhar no tempo. E um convite a se reconectar e sentir-se em casa.
Vale a pena conhecer a Enseada e – certamente – ler e ver o livro!

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