texto LELIA PEREIRA DA SILVA NUNES
fotos MARCO CEZAR | ACERVO PESSOAL
Um aceno da janela do edifício João Moritz, junto à Praça XV de Novembro, marcou o meu primeiro encontro com a artista plástica Beatriz Silveira
Estava curiosa para conhecer a mulher dona de uma grande sensibilidade artística e que confeccionara em 2019 um imenso tapete para a tradicional procissão de Corpus Christi de Florianópolis. O trabalho feito em lona, com 50 metros de comprimento, intitulado “Marcas da Devoção”. As pinturas muito coloridas foram inspiradas na arte efêmera dos tapetes que, a cada ano, são confeccionados como forma de expressão de fé e devoção do povo. Da janela de seu ateliê, desde 2009, observou atentamente e registrou todo os fazeres, os materiais utilizados e o envolvimento das pessoas com a secular tradição religiosa. O processo criativo buscou o passo processional, o caminhar lento e respeitoso das pessoas e o depois… quando a procissão passa e restam os vestígios, as marcas da devoção. Em entrevista ao jornalista Anderson Coelho/ND, Beatriz falou do significado do seu tapete: “Depois que as pessoas passam, as marcas ficam, então é como se todos tivessem produzido um pouquinho do painel”.

Ela tem um interesse muito especial pela festividade de Corpus Christi, pelo encanto da representação, pelo significado religioso e pela arte dos tapetes, por seu colorido e beleza que a fazem lembrar da época do colégio, quando ajudava na preparação dos tapetes e participava da procissão. No ano de 2024, o tapete foi novamente exposto, desta feita nas escadarias da Catedral.
Tive o prazer de conhecer o ateliê da artista apaixonada por Artes Visuais que trazia no olhar sereno a sabedoria de quem reconhece na identidade cultural, a alma da cidade, traduzida nos usos, costumes e crenças da nossa gente e que cada um carrega dentro de si.
De chegada, apreciei as paredes cobertas por alguns trabalhos seus e de outros pintores. Uma pequena biblioteca de artes e a sua mesa de trabalho com muitos projetos em desenvolvimento nas artes plásticas e na fotografia. Fico sabendo que gosta de ler e sempre está pesquisando e querendo saber mais sobre o mundo das artes e do imaginário popular com suas tradições e costumes como o Corpus Christi e a Festa do Divino Espírito Santo.
A conversa fluiu gostosa, leve e sem formalismos. Com simpatia e franqueza absoluta contou de seus interesses e o que a esperava (e dela esperavam) como primeira-dama de Florianópolis, e da Beatriz, mulher do prefeito Topázio Silveira Neto e amorosa mãe da Betina e Carina.
Observei, no seu jeito quase tímido de sorrir, que a dona Beatriz é uma mulher de personalidade forte, determinada, inteligente, de raciocínio rápido, sabe muito bem defender seu ponto de vista com firmeza. Aliás, a fala tranquila, a perspicácia e a frontalidade refletida nos olhos azuis não deixam qualquer dúvida quanto ao seu jeito de ser e estar.
Com certeza, ainda vamos ouvir falar muito da nossa primeira-dama por sua capacidade de trabalho, por sua humanidade e grandeza de atitudes e pela contribuição social e cultural que já presta à gente de Florianópolis, à frente da Fundação Somar Floripa, a rede de inovação social que conecta os cidadãos às Organizações Sociais, que é vinculada ao Gabinete do Prefeito Municipal.
Mas afinal, quem é Beatriz Silveira?
Nasceu em Joinville e ainda criança foi para Itajaí e Blumenau, onde morou até completar o ensino médio. Fez os primeiros estudos no Colégio São José e no Colégio Santo Antônio. O pai, Osvaldo Harger era militar e a mãe, Érica Wolff Harger, blumenauense de nascimento, arrendou a “Confeitaria Tante Tilli”, e foi ali que Beatriz, aos 11 anos, começou a trabalhar, aprendendo desde a tenra idade a importância do trabalho, a responsabilidade no cumprimento das tarefas e dos deveres.
Muito jovem veio para Florianópolis fazer o vestibular e cursar Engenharia Civil na UFSC. Conheceu o estudante Topázio Silveira Neto, namoraram e a 7 de julho de 1984 se casaram. Construíram sua família, nasceram as filhas Betina e Carina. Beatriz começava, ao lado do marido Topázio, a escrever um novo capítulo da sua história de vida, agora a partir de Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina.
Abro um parêntesis para contar um fato curioso que vale o registro. No dia do seu batismo, a tia-avó Anne Maria Harger, uma admirável professora, referência na história educacional de Joinville, presenteou a sobrinha com uma pedra topázio. Mera coincidência? Ou seria, obra das bruxas da Ilha tecendo as suas rendas?

Tem uma formação profissional bastante diferenciada, sobretudo porque sempre faz o que gosta e acredita. Prestou concurso para a Caixa Econômica Federal, onde permaneceu por 16 anos. Cursou especialização em Produtividade e Qualidade Total no curso de Engenharia de Produção. Fez Direito, atuando com o direito trabalhista. Com formação no IBGC, em São Paulo, foi Conselheira de Administração e exerceu função executiva na empresa da família.
Mulher de propósitos definidos, dedicação ao trabalho e muito determinada, Beatriz acredita que a educação é a ferramenta certa para o desenvolvimento da pessoa e para a realização profissional. Só com muito estudo e dedicação ao trabalho a pessoa consegue melhorar a vida, construir uma carreira e se realizar plenamente.
Atualmente, além das funções sociais como primeira-dama de Florianópolis e presidente voluntária da Fundação Somar Floripa, dedica-se aos projetos artísticos, uma atividade que é sua paixão. Com isso segue se expressando nas Artes Visuais do desenho, da pintura e da fotografia. Hoje, a fotografia tomou conta do seu fazer artístico, buscando imagens que transmitem mensagens que levam à reflexão. A fotografia surgiu para registrar as suas pesquisas, como plantas diferentes ou cenas, instantes de vida, para um posterior desenho e pintura.
Em suma, a fotografia permite uma leitura artística da imagem. Mais, recentemente, cultiva um novo prazer – as trilhas pela Ilha e quiçá pelo mundo afora. É muito comum nos finais de semana encontrá-la percorrendo as trilhas da Ilha.
Quanto a ser primeira-dama, considera uma honra e uma grande responsabilidade. Assumir o compromisso de trabalhar pelo desenvolvimento social, ao lado do seu marido e prefeito, observando os caminhos que se abrem para cumprir uma nova jornada com serenidade, tranquilidade e segurança. Significa também adequar a vivência familiar ao papel de primeira-dama de Floripa – “em primeiro lugar não abre mão da família e, depois, do convívio dos amigos”.
Para Beatriz, conduzir a Fundação Somar Floripa tem sido um desafio pessoal e uma grande satisfação por poder estar a serviço das pessoas, seja nas campanhas sociais e no atendimento das pessoas e famílias em risco de vulnerabilidade, por intermédio das organizações sociais de Florianópolis, seja em momentos de calamidade, como as decorrentes das fortes chuvas que atingiram Florianópolis, e na ação imediata de minimizar o flagelo de tantas famílias. Hoje, a Fundação Somar atende mensalmente 258 organizações sociais do município.
Reconduzida ao cargo de primeira-dama e presidente da Somar em 1º de janeiro de 2025, iniciou um novo mandato, tendo por base o que foi aprendido, avaliando os resultados e seguindo um planejamento estratégico para melhorar ainda mais o atendimento e continuar inovando no desenvolvimento social.
À frente da Fundação Somar Floripa e tendo ao lado uma equipe eficiente e empenhada, sente-se gratificada com o engajamento dos voluntários, das doações da sociedade e das empresas parceiras, que dizem SIM às inúmeras campanhas realizadas durante todo o ano e aos projetos de inovação social, à promoção de cursos de inclusão digital, de tecnologia, de gestão e governança, de formação profissional e empreendedorismo, oferecendo oportunidades para que tenham trabalho e dignidade de vida.

Sem querer adjetivar, mas tão somente reconhecer a sua vontade no entregar o melhor para nossa gente, o mais importante é ver o resultado na ponta, quando as entidades assistidas pela Fundação Somar conseguem melhorar a vida de milhares de pessoas.
Ser presidente voluntária da Fundação Somar tem sido motivo de orgulho, uma oportunidade ímpar de crescimento pessoal e por isso com muita modéstia deixa transparecer a felicidade de realizar um trabalho socialmente justo e relevante para a população da capital dos catarinenses, contribuindo para a construção de uma sociedade mais participativa na luta pelo bem-estar comum. A integração com diversos setores e regiões da cidade a gratifica pelo conhecimento e sensação de utilidade.
Ao final da nossa conversa – que deu origem a este artigo – perguntei à Beatriz como pretende trabalhar e executar políticas públicas voltadas às causas das mulheres e suas lutas. Sua resposta veio rápida e segura: defender e proteger os direitos da mulher é uma missão da sociedade. E a Fundação Somar Floripa já vêm trabalhando nesta direção, realizando cursos de capacitação profissional focados na inserção feminina no mercado e, ao mesmo tempo, fomentando o empreendedorismo. É papel do Centro de Inovação Social da Fundação Somar ser parceira de ações e movimentos que visam assegurar os direitos da mulher, condenando estereótipos sociais e culturais que classificam a mulher como cidadã menor.
Poderia afirmar que Beatriz Wolff Harger Silveira é uma mulher da Ilha entre o cerco da terra e do mar. Porém, não é verdade. Nem o mar, nem a terra foram impedimentos para a mulher Beatriz alargar horizontes, empreender experiências, buscar conhecimentos em campos diferentes do saber, seguir o impulso para a aventura de novas descobertas.

Exposição “Tapetes de Corpus Christi”
Artista plástica com um interesse muito especial pela festividade de Corpus Christi, Beatriz Wolff Harger Silveira está com uma linda exposição no Museu Histórico de Santa Catarina (Palácio Cruz e Sousa, em Florianópolis), focada justamente nesse tema.
Com curadoria de Meg Tomio Roussenq, a mostra estará aberta até o dia 12 de julho, e reúne diferentes linguagens em torno da simbologia da festividade, com destaque para um tapete de 50 metros, pintado à mão, um livro-objeto interativo sobre o significado do evento, telas com pinturas acrílicas e um vídeo que documenta o processo de criação das obras.
A exposição foi aberta no dia 12 de junho – uma semana antes da festividade -, e permanece aberta à visitação até 12 de julho.
A visitação é gratuita e ocorre de terça a sexta-feira, das 10h às 17h30, e aos sábados, das 10h às 13h30.
Confira as fotos de Marco Cezar no evento de abertura!





